Cartas de Exposição: correspondências em tempos de isolamento social

29/06

Gerência de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado

A Fundação Clóvis Salgado dá continuidade ao projeto Palácio em Sua Companhia com conteúdo inédito desenvolvido pela Gerência de Artes Visuais. Nesse espaço, o leitor acompanhará o eixo Cartas de Exposição, que compartilha correspondências virtuais de artistas que já expuseram no Palácio das Artes e na CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais. De modo a instigar um olhar afetivo em torno do cotidiano, o eixo busca recuperar de forma sensível a experiência da troca de cartas, retomando a memória das artes visuais através de um mecanismo repleto de simbologia. Os textos publicados são respostas à própria FCS, que envia o seguinte modelo de carta virtual, adaptado para cada destinatário:

“Caro Artista,

Espero que esta carta lhe encontre com saúde e alegria! Vivemos tempos difíceis, e em momentos assim precisamos relembrar com carinho parte de nossas trajetórias. Escrevemos esta carta como um convite para que você busque na memória um pouco da sua experiência de expor no Palácio das Artes / CâmeraSete, e compartilhe conosco esse processo e um pouco do nosso encontro.

Receba o nosso saudoso abraço,

Fundação Clóvis Salgado”

 

Carta de Claudia Tavares

 

8/18/2020

Cara Fundação,

“Me lembro de estar me deslocando dentro de um carro durante um período que passei em Portugal em 2017, quando recebi a notícia da minha seleção no edital de ocupação. Uma felicidade enorme tomou conta de mim. Iria montar pela primeira vez Um jardim em Floresta.

Começou então o processo de construção da exposição, que ocorreu já de início com uma mudança de galeria. Essa mudança exigiu um novo desenho de montagem, já que a galeria inicial era menor. Muitas dúvidas surgiram, claro, mas junto a elas também outras possibilidades de ocupar o espaço expositivo. A Galeria Mari’Stella Tristão tem dois nichos que se mostraram perfeitos para a projeção de dois vídeos que num primeiro momento seriam apresentados em monitores. As projeções tomaram os nichos e os sons dos vídeos se misturaram, trazendo uma ambiência para as fotografias que ocupavam as paredes. Cito aqui um trecho do texto do presidente Augusto Nunes-Filho [Gestão 2015 – 2018] que me emocionou, “… articula natureza e arte sob a égide do elemento água, invocado da gota a gota ao temporal”.

Todo o processo de trabalho com a equipe das artes visuais correu super bem, com muito respeito, profissionalismo e dedicação.

Agradeço a todos por isso.

Um abraço carinhoso da Claudia Tavares

 

Exposição Um jardim em Floresta, de Claudia Tavares, na Galeria Mari’Stella Tristão

Sobre a exposição Um jardim em Floresta: Refletir sobre o excesso e a falta é a proposta de Claudia Tavares, natural do Rio de Janeiro, com a exposição Um Jardim em Floresta. Nessa narrativa artística, ela conta a história de uma ação evolvendo a criação de um jardim, que começa com o armazenamento da água no Rio de Janeiro e se completa no município de Floresta, sertão de Pernambuco, região atingida por longas e severas secas. “Um jardim em Floresta” fez parte do Edital de Ocupação de Artes Visuais de Fundação Clóvis Salgado.

 

 

 

 

Exposição Um jardim em Floresta, de Claudia Tavares, na Galeria Mari’Stella Tristão

Sobre a artista Claudia Tavares – Doutoranda em Processos Artísticos Contemporâneos pelo Instituto de Artes UERJ, Mestra em Artes pela Goldsmiths College, Londres e em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes, UFRJ e formada em Comunicação Social pela Faculdades Integradas Hélio Alonso, Rio de Janeiro. Participou de exposições individuais e coletivas em diversos espaços, no Brasil e em outros países. Suas principais exposições são “Light Boxes”, 2001, 291 Gallery, Londres; “entre nuvem e vento”, 2007, Galeria do Ateliê, Rio de Janeiro; “Nós”, 2011, Espaço Sérgio Porto, Rio de Janeiro; “Branco Preto”, 2012, Galeria Tempo, Rio de Janeiro; “Vestida de infância”, 2015, Galeria do Ateliê, Rio de Janeiro; “Até”, 2015, Galeria Graphos, Rio de Janeiro; “Disaster’s Zone, Galeria Cozinha, Porto/Portugal, Bienal de Cerveira 2018, Portugal. Ganhou 3o prêmio com o vídeo “BláBláBlá”, na 9o Bienal Nacional de Santos 2004, Bolsa Faperj Nota 10 e Bolsa PDSE Capes em 2016. Faz parte da coleção de Cesar Gaviria, Colômbia e Joaquim Paiva, Brasil, atualmente em comodato no MAM/RJ. Participou das Feira Internacional de Arte Bogotá 2009, SPArte 2012 e da Art Rio 2012 e foi representada pela Galeria Tempo entre 2006 e 2014.

 

 

 

 

 

 

Carta de Luis Arnaldo

 

 

Campinas, 01 de agosto de 2020

Olá, pessoas queridas

Espero que esta carta lhes encontre bem. Acolho, é claro, com alegria o convite de recordar a exposição. Me é, entretanto, um bocado assustador tomar consciência agora, enquanto escrevo, de que já se passaram dois anos. Porque, na verdade, ainda mantenho por aqui o cheiro e o frescor daquele espaço revestido com tinta fresca. Retenho o sorriso feliz ao adentrar na galeria completamente vazia. Recordo com gratidão a oferta de tempo que me cederam para que eu pudesse, ao longo de semanas, desenhar com calma e minúcia, com objetos frágeis, a vastidão da galeria Genesco Murta (difícil tarefa esta: de cuidar para que a forma do lugar não se tratasse por um contrassenso; para que as medidas despropositadas das coisas fundassem tensões, e não se perturbassem). É raro encontrar quem ofereça condições tão dignas e ainda mais: que se ofereça também como cúmplice. Tomo a oportunidade aqui, pois, de agradecer a cumplicidade de toda a equipe, ao longo de todo o trajeto: da iluminação à limpeza, da pintura aos impressos. Aliás, conto a vocês que, vez ou outra, ainda me deparo com a insistência daqueles impressos, que foram generosamente disponibilizados aos visitantes: me deparo com pessoas (ou contam-me) que mantêm o cartaz da exposição, na intimidade de suas casas, pregado à parede. Confesso que ao ver (ou ouvir) sorrio largamente.

Me ocorre aqui um curioso acaso: a carta como contexto para a memória. O enorme título que escolhi para a exposição fora justamente retirado de uma carta. Louis Agassiz comunicava à sua mãe, em março de 1865, que viria passar um longo período no Brasil e, lhe remetia a justificativa que hora havia dado a seu amigo, Nathaniel Thayer Jr., e também financiador da Expedição Thayer: Mon cher, je suis fatigué, et j’ai besoin de repos; Je vais flâner au Brésil! (Querido, eu estou cansado e preciso descansar, vou passear no Brasil!). Uma justificativa irônica, perversamente leviana, porque sabemos que as intenções de sua vinda foram, na verdade, predatórias.

É também curioso presenciar que muitas questões levantadas naquela exposição jorram hoje sobre a mesa, sendo despejadas, tal corpo intragável, dada a situação de terror em que vivemos. O empreendimento científico de Agassiz, facilitado pelo governo brasileiro, pretendia levantar provas geológicas que confirmassem o criacionismo. Em paralelo, sob fundamentação eugenista, forjava também confirmar a degeneração da sociedade brasileira como um todo, em função de seu estágio avançado de miscigenação. Aos olhos eugenistas, nós, brasileiros, dávamos corpo ao pior cenário humano na Terra. Conto a vocês que recentemente me deparei com um sujeito, contemporâneo de Agassiz, que também compactuava com seu pensamento. O diplomata francês, Gobineau, predizia que nossa sociedade não chegaria salva a meados do século XXI, posta a se extinguir naturalmente. A única solução possível para este senhor seria o repovoamento do país, por imigrantes brancos, sob a condição de que se mantivessem sem desvios perniciosos, mantendo fieis a sua classe étnica originária. Quanto constrangimento! Um espanto reconhecer a triste estrutura que nos formou.

Viver é mesmo muito perigoso. E lembrar, me é hoje mais necessário do que nunca. Tenho me sentido impotente diante de tanto. Não que eu tenha deixado de acreditar na potência da arte. Pelo contrário! É “o” modo de enfrentamento sanador. Mas é que, de tempos em tempos, os ventos que sopram, são desafiadores demais; parecem nos alertar que tanto lixo assim será transposto senão com dificuldade. Tenho respondido aqui com silêncio e singelas banalidades. Em casa, venho construindo um oratório. São colagens bobas de arranjos com flores e frutas; feitas de uma infinidade de estampas de tecidos recortadas por minha mãe há algum tempo e que as encontrei. Deixo vocês com a imagem de uma delas, em agradecimento. E um abraço e um sorriso largo, a cada um. Fiquem bem!

Luis Arnaldo

 

Exposição Mon cher, je suis fatigué, et j’ai besoin de repos; je vais flâner au Brésil!, de Luis Arnaldo, na Galeria Genesco Murta

Sobre a expoisão Mon cher, je suis fatigué, et j’ai besoin de repos; je vais flâner au Brésil!: O conhecimento em arquitetura de Luis Arnaldo foi o ponto de partida para que o artista iniciasse sua pesquisa em artes visuais. Na exposição Mon cher, je suis fatigué, et j’ai besoin de repos; je vais flâner au Brésil!, o arquiteto, natural de Campinas (SP), reúne 13 trabalhos cujos procedimentos de feitura partem de estratégias do Desenho, que vêm sendo construídos desde 2016 e percorrem o pensamento do naturalista Louis Agassiz (1807-1873), que determinava a predominância de hierarquias em algumas raças e condenava a miscigenação. Além de promover uma reflexão no visitante a respeito das ideias segregacionistas de Agassiz, a exposição dialoga com o ofício do arquiteto e seu compromisso com a produção da paisagem. Fez parte do Edital de Ocupação de Artes Visuais de Fundação Clóvis Salgado.

 

 

 

 

Exposição Mon cher, je suis fatigué, et j’ai besoin de repos; je vais flâner au Brésil!, de Luis Arnaldo, na Galeria Genesco Murta

Sobre o artista Luis Arnaldo – É bacharel em Litografia pela Escola Guignard da UEMG (2016) e arquiteto-urbanista formado pela Escola de Arquitetura da UFMG (2010). Tem como principal objeto de interesse o Espaço e seus agentes formadores. Ao investiga-lo, toma a Arte como plataforma instituída para confrontar o pensamento científico – sobretudo a Geografia, a Antropologia, a Arquitetura e o Urbanismo. Embora trabalhe com uma ampla gama de mídias, desenvolve uma pesquisa continuada em Desenho. Considera este meio, por suas estratégias de Ação e modos para o conhecimento, como uma ferramenta eficaz em tornar visível relações entre Corpo, Espaço e Paisagem. Desde 2014, em associação a esta pesquisa individual, também estuda e desenvolve trabalhos em coautoria com Marcelino Peixoto.

 

 

Carta de Élcio Miazaki

 

“São Paulo, junho/julho de 2020

Prezada Fundação Clóvis Salgado:

Muito obrigado pela atenção, a sua carta foi entregue cuidadosamente ‘em mãos’. Recebi as palavras, abertas para uma conversa, como vindas de um conhecido muito próximo e de longa data. Elas significaram um resgate. Este retorno tornou-se uma chance para eu agradecer a ‘hospedagem’, relembrá-la e poder escrever sobre a importante estada. Grato pela preocupação perante nós artistas, que tivemos uma passagem pelos seus espaços. Também me encontro com saúde. Vivo, apesar da grave pandemia (e suas consequências), da qual sequer sabemos o prazo de vencimento. Devido à situação, por favor, não estranhe a falta dos sinais de exclamação. Logo, peço desculpas, pois não me senti confortável em usá-los. Mas tenha a certeza de que eles estão na minha resposta, apesar de não visíveis.

Em 2019, no dia em que foi publicado o resultado dos editais de ocupação (entre eles, o de fotografia), achei que eu não estava entre os selecionados. Pensava que os contemplados recebiam o comunicado antecipadamente. Ao conferir atentamente a divulgação, li o nome da exposição (Impulsos Imitativos) junto ao meu. Ocorreram sentimentos de surpresa, gratidão e também de grande responsabilidade. Sei que foi arriscado – e deve ter soado até cínico – inscrever uma proposta que contesta as formas e regimes institucionalizados, quando ela própria depende dos espaços de uma organização. Além desse fator, nessa mesma proposta, a fotografia sempre foi apresentada sob uma abordagem mais relacionada às vivências e experimentações, em contraposição à ideia somente de imagens em ‘papel’. Explico, a fotografia motivou os trabalhos expostos. Por isso, devem ser reconhecidos, permanentemente, os lugares que assumem e defendem comissões de seleção como a sua e a qual fui submetido. Quando me informaram que a exposição ocuparia o espaço da frente da CâmeraSete, imenso e com pé-direito duplo, fiquei por um tempo paralisado, mas também foi um estímulo. Originalmente, no momento da inscrição, o plano era de uma expografia pensada para a sala de trás, que fez repensarmos o desenho. Com o tempo, acredito que compreendi a função desse local específico. Este reforçou a existência de objetos, em sua maioria na escala e uso humanos (portanto, diminutos), tornando-os ainda menores. Vale lembrar, que determinados trabalhos da exposição abordavam a redução de imagens militares, como um desejo de torná-los miniaturizados. Portanto, a meu ver, a sala voltada à entrada da CâmeraSete funcionou como mais um integrante da própria exposição. E, certamente, a gerência de artes visuais e sua equipe já enxergavam essa circunstância. Ambas, sempre prestativas, me ajudaram na tomada de redefinições ao apoiarem a expansão de determinadas séries e inclusão de algumas peças (o guarda-roupa com uniformes e outros objetos, exposto pela primeira vez, foi uma delas). Percebemos que só conseguimos constatar o comportamento de tudo, quando testado no próprio local. Contei com profissionalismos nos transportes de ida e volta das obras, laudos das mesmas, elétrica, marcenaria, montagem e desmontagem. Houve também os trabalhos essenciais, bem executados, de identidade visual, assessoria de imprensa e do CEFART (Centro de Formação Artística e Tecnológica). Enfim, uma configuração rara de trabalho na condução de uma exposição. Inclusive notei uma sensibilidade da gerência de artes visuais, no cuidado com os funcionários que estiveram no dia-a-dia das ocupações, como os responsáveis pela segurança e manutenção, informando-os sobre os conceitos e intenções das ocupações, ou melhor, formando e incluindo-os na discussão.

Em ‘Impulsos Imitativos’, sei da necessidade de atravessar algumas camadas para compreender que o projeto não faz apologia às forças armadas, nem às suas ideologias. Existe nele, além da face diretamente associada à política, um questionamento dos modelos considerados predominantes e ‘exclusivos’ ao sexo masculino. Entendemos que esses padrões podem ser até as causas de inúmeras incongruências que sofremos, ontem e hoje. Fundação, por isso foi essencial a sua Cia de dança ter atuado perante um público espontâneo, na calçada da CâmeraSete e em plena Avenida Afonso Pena. Houve, sobretudo, uma conceituação com forte significado, onde somente os integrantes homens do grupo se apresentaram, sob uma direção formada unicamente por mulheres. Pude conhecer melhor e acompanhar o trabalho dos seus artistas, apesar de eu residir em São Paulo. A coreografia concebida pela Companhia, a partir de visitas à exposição e consequentes leituras, demonstrou que nos beneficiamos sempre quando acontecem encontros entre as diversas manifestações artísticas (no caso, das visuais com a dança). Enfim, uma expressão apontou possíveis caminhos à outra (e vice-versa), em mútuos entendimentos.

Foi um período, na qual me senti mais pertencente à cidade, ao ter retornado sucessivas vezes a BH no mesmo ano (devido à montagem, dia da conversa – sobre as individuais simultâneas – e desmontagem). Analisando o conjunto, acredito que ‘Impulsos Imitativos’ conseguiu chegar na sua ‘maior’ versão, mais inteira e madura, devido ao trabalho muito bem conduzido por sua equipe. Quando os projetos atingem esse estado, costumo pensar no indício de um trabalho realizado na sua totalidade, que dificilmente voltará a ser exposto com mesmo grau. Não sei se significa um fim. Talvez. Às vezes, penso que partes de ‘Impulsos Imitativos’ deveriam ainda ser levadas num quartel ou batalhão, com o objetivo de saber como seria o ‘ruído’ num local tão específico, pois diversos elementos da exposição pertenceram a esse universo. Apesar de sabermos que há possibilidades de recortes dessa exposição acontecerem em coletivas, sob outros ‘tetos’, acredito que devemos operar como se não houvesse mais outra chance de expor. Quando foi anunciada a mudança de nome para Prêmio Décio Noviello, percebi que ‘Impulsos Imitativos’ esteve entre as exposições pertencentes ao edital, este em seu ‘último’ ciclo, já com nome antigo e ocorrido no derradeiro ano ‘normal’, mas sabemos que vivemos na anormalidade há anos, com ondas de retrocessos.

Creio ter errado muito na escrita dessa resposta. Tratam-se de eventos ocorridos (portanto, no ‘passado’), que reverberam até hoje, com a certeza de que me acompanharão na trajetória. Por isso, a confusão dos diversos tempos verbais conviverem nessa carta. Devo inclusive lembrar dos percursos em editais, quase em sua totalidade, de instituições com dificuldades reais. Entretanto, nelas sempre pude também encontrar pessoas com absoluta dedicação aos seus trabalhos, tornando efetiva a própria existência dessas instituições. E, Fundação, reconheço ser parte do resultado desse aprendizado, que permitiu também a possibilidade de eu chegar a uma temporada no seu espaço. Com semelhança a minha formação em arquitetura e urbanismo, aprendi que é crucial estar in loco, presente com objetivo de atender a necessidades, reforçando que qualquer tomada de decisão precisa ser justificada, verossímil. Esses propósitos, eu avalio que precisam estar à frente e acima do ‘artista’, melhores que o próprio. Se é ‘arte’ o que faço, não é para ser artista. Além de abordar questões que me instigam pela dubiedade e mimetismo, há uma necessidade de retratar assuntos incômodos, como eles reverberam ao menos em mim. Eu me preocupo quando não há possibilidades de sustentar as devidas convicções, vontades e liberdades. Então, recorro às palavras mencionadas pelo Alexander Santiago no texto da exposição: ‘somos todos soldados abandonados à própria sorte em um campo de batalha interior, cara a cara com nosso maior inimigo, aquela imagem que insiste em nos imitar e que não nos permite existir’.

Pra terminar, Fundação, temos pouca diferença de idade. Nascemos nos anos 1970, em plena ditadura civil-militar no país. O trabalho exposto carrega muito da busca por materiais dessa época, para num momento, agora adultos, nos certificarmos do que aconteceu e não tivemos discernimento quando crianças. Parabéns pelos 50 anos! Muito obrigado por toda a experiência proporcionada. Espero poder reencontrá-la em breve. Cuide-se bastante. Farei o mesmo.

Um forte abraço. Até!

Élcio Miazaki

P.S.1: Fiquei no chão contíguo ao de ‘Arquipélago’, do Victor Galvão, artista belo-horizontino que naquele momento se despedia de BH. Estive também na companhia de Lorena D’arc, Renata Cruz e Rodrigo Arruda, artistas acolhidos no Palácio das Artes. Que se repitam, nas próximas edições, encontros como esses.

P.S.2: Como provas de retomadas e gratidão, envio algumas imagens de um processo iniciado no mesmo ano da exposição na CâmeraSete. Voltei a lidar com certos documentos, há poucas semanas. Encontradas numa antiga caderneta militar, as perguntas ‘Lê?’, ‘Escreve?’ e ‘Conta? , sempre me desconcertaram.

P.S.3: Desculpas pela demora na minha resposta e também por ela ter ficado longa. Foram diversos dias lendo e relendo. Eu precisava ser bastante cuidadoso. E não poderia esquecer de qualquer fato, mesmo sabendo da impossibilidade disso ocorrer. Por favor, se puder, aponte aqueles que não citei.”

 

Exposição Impulsos Imitativos. Fotografia Miguel Aun

Sobre a exposição Impulsos Imitativos – Em sua 4ª edição consecutiva, o Edital de Ocupação de Fotografia da Fundação Clóvis Salgado levou à CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais as exposições Arquipélago, de Victor Galvão (MG), e Impulsos Imitativos, de Élcio Miazaki (SP). Impulsos Imitativos partiu de pesquisas relacionadas ao meio militar, criando um repertório que se faz familiar ao cotidiano civil por meio de objetos simbólicos manipulados artesanalmente. Élcio investigou os pontos de coincidência entre universos aparentemente distintos, o militar e o civil, utilizando a simbologia das Forças Armadas para tratar de assuntos universais como a melancolia e a incerteza. No conjunto da exposição, o artista aponta para uma visão crítica que salienta questões importantes, observando, também, o homem por trás da farda. Na série, Élcio se apropria de imagens do contexto militar encontradas em garimpos. Segundo o artista, seu interesse pelo patrimônio histórico se relaciona à sua formação em arquitetura e desde os anos 1990 tinha uma preocupação pela conservação da memória.

 

Exposição Impulsos Imitativos. Fotografia Miguel Aun

Sobre o artista Élcio Miazaki – O artista, com formação em arquitetura e  urbanismo,  vive  e trabalha na cidade de São Paulo. É recorrente, em sua pesquisa,  preocupação em ‘reconstituir um contexto’ por meio de materiais de época (principalmente das décadas de 1970 e 1980).. Período no qual    o Brasil passou pela ditadura militar e posterior redemocratização, coincidentes com os anos de  infância  do  artista.  Ao  abordar  as Forças Armadas, não apenas nas questões  políticas,  mas  nas questões que envolvem o arquétipo masculino, tão mal resolvido que  pode ser uma das causas das incongruências atuais. Tem exposto em instituições, entre elas: o MARP (Museu  de  Arte  de  Ribeirão  Preto- Pedro Manuel Gismondi), Fundação Clóvis Salgado (BH-MG), Memorial Municipal Getúlio Vargas (RJ-RJ), Museu Casa das Onze Janelas (Belém-PA), Memorial da América Latina, MASP, Museu da Casa Brasileira, Instituto Cervantes, Sesc DF e MAB (Museu de Arte de Blumenau-SC). Destacam-se, além de exposições em galerias como a Vermelho, Zipper, Sancovsky e Orlando Lemos, o mapeamento pelo Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural; a participação na mostra em Milão (Itália) e a seleção na 18a Bienal de Cerveira (Portugal – 2015) e no Prêmio Diário Contemporâneo (2018). Chegou a desenvolver projetos de exposições coletivas e a participar de uma curadoria conjunta (com Yolanda Cipriano) na 2a Mostra de Arte Contemporânea na Casa da Memória Italiana (2018), em Ribeirão Preto- SP. Na mesma cidade, coordena um programa de residência artística desde 2017.

 

 

Carta de Rafael Zavagli

“Belo Horizonte, 09 de julho

Caros amigos da Fundação,

Uma grata surpresa receber o convite para relembrar a exposição “Entreatos e Notas”, evento este tão querido por mim.

Meados de 2015, meses de muita pintura e noites viradas em meu atelier. A partir do momento em que recebi a carta enviada por vocês, passei a reviver com muito carinho lembranças do caminho percorrido na realização da mostra, desde a concepção até a devolução das obras. Guardo na memória as leituras, conversas e experiências desse período e ainda tenho todos os estudos preliminares das pinturas, esboços de projetos expográficos e inúmeras playlists musicais que fazia quase diariamente, parte de um “ritual de preparação” para começar a pintar.

Hoje, olhando para trás, considerando o distanciamento natural que o tempo nos impõe, percebo que dentre as vivências daquele período, o que houve de mais rico e transformador foi a experiência coletiva de trocas e compartilhamentos presentes nas etapas do desenvolvimento da mostra individual. Tenho a certeza que minhas conversas semanais com Júlio Martins, amigo e curador da exposição, foram fundamentais para a criação e concretização dos trabalhos; assim como estou certo de que minhas leituras e entendimentos sobre os mesmos ganharam novas perspectivas a cada encontro com a equipe educadora do Palácio das Artes, a cada reunião com as turmas de estudantes que visitavam a exposição. Conheci pessoas, fiz grandes amizades.

No momento em que escrevo essa carta, inevitavelmente, faço um paralelo entre a rotina introspectiva e solitária no atelier, a fase de isolamento decorrente da pandemia e o período de tempo descrito acima (que nasceu, se desenvolveu e colheu desdobramentos a partir das relações de troca) e percebo que, para além do objetivo primeiro – a proposição de diálogos, inaugurar uma exposição tem outra bonita e relevante função social: Celebrar encontros.

Agradeço, uma vez mais, às pessoas queridas da Fundação Clóvis Salgado, em especial toda a equipe do Palácio que compartilhou comigo todo o processo relembrado aqui. Foi um grande prazer trabalhar com vocês e poder desfrutar desse espaço tão especial.

Um enorme e saudoso abraço e o desejo de que possamos nos encontrar em breve.

Rafael Zavagli”

 

Obra que integrou a exposição Entreatos e notas, de Rafael Zavagli

Sobre a exposição Entreatos e notas – Reunindo aproximadamente 20 quadros em tamanhos diferenciados, a exposição de Rafael Zavagli fez parte do Programa ARTEMINAS no ano de 2015 (também participaram da edição os artistas Advânio Lessa e Domingos Mazzilli). A mostra Entreatos e notas explorou a paisagem para aprofundar uma pesquisa sobre a feitura pictórica, utilizando da imagem para se debruçar sobre a relação entre o homem e a paisagem, pensando sobre a natureza, o espaço habitado e as constantes transformações estéticas. Nesta ocasião, Rafael se voltou para a pintura do que chama de “não lugares”, o que caracteriza como espaços e paisagens que não tem a função de uma representação real e, por isso, permitem explorar mais as questões técnicas e conceituais da pintura. Em sua pesquisa, Rafael buscou observar fauna, flora, e os reflexos da interferência humana nesses locais. O artista se propôs a pensar em uma pintura de paisagem que transitasse entre as pinturas de caráter quase documental, e a pintura de paisagem contemporânea, mais voltada para a técnica.

 

 

Rafael Zavagli. Exposição Entreatos e notas, na Galeria Genesco Murta

Sobre o artista Rafael Zavagli – Graduado em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG em 2006, tem na pintura seu principal foco de pesquisa e atuação, mas também desenvolve trabalhos nos campos do desenho, gravura, design gráfico e cenografia. Entre suas principais exposições individuais estão: “Entreatos e Notas”, realizada no Palácio das Artes (Belo Horizonte) em 2015; “Paisagem/Retiro” no SESC Palladium, Belo Horizonte em 2014; “Breves Terrenos para uma pintura” – Galeria Laura Marsiaj, RJ, em 2012; “Sobre duas ou três paisagens” no Palácio das Artes, Belo Horizonte em 2009. Participou de diversas exposições coletivas, dentre elas: “Pequeno Panorama em Pequenos Formatos”, Quina Galeria de Arte, Belo Horizonte (2010); “Encontros e Mestiçagens Culturais | Breve Panorama da Pintura Contemporânea em Minas Gerais,” FAOP, Ouro Preto (2010); e “Bienal da Energia”, idealizada pela CEMIG. Palácio das artes e Expominas, Belo Horizonte, Brasil. Em 2014 foi responsável pela cenografia de “Plano”, espetáculo de dança da SESC Cia. de dança. Entre os anos de 2008 e 2010 atuou como arte-educador em ONGs e instituições de ensino e é, desde 2003, músico integrante de grupos de choro de Belo Horizonte.

 

Carta de Alex Flemming

“Minha exposição retrospectiva no Palácio das Artes em BH em 2017 foi uma ótima oportunidade de voltar a conviver com o Planeta Minas.

Fiquei extremamente feliz com a curadoria, com a disposição das obras e com o calor contagiante, colaborador e prestativo da equipe do Fundação Clovis Salgado. Eu acho que eles também eventualmente gostaram de mim, pois naquela época apareceu um filhote de gatinho perdido lá na escada do escritório deles, e eles puseram o nome “Flemming”.

O Projeto gráfico do catálogo ficou impecável, a iluminação também. As grandes e inúmeras janelas que dão diretamente para a Avenida Afonso Pena foram cobertas por painéis fotográficos com uma obra onde eu retrato um olho, convidando todos a exercitar nossa visão artística para o Mundo e proporcionando assim um diálogo entre a esfera pública da avenida e a interna do setor de exposições.

Ainda hoje, me alegro quando recebo mensagens via Instagram ou Face de pessoas que não conheço pessoalmente e que se dirigem a mim dizendo que estiveram na exposição. Quero voltar mais vezes a Minas.

Um forte abraço do Alex Flemming”

 

Exposição de CORpo e alma, do artista Alex Flemming, na Grande Galeria Guignard

Sobre a exposição de CORpo e alma –  Alex Flemming transita pela gravura, instalação, desenho, colagem em esculturas e objetos, e “pintura sobre superfícies não tradicionais”, como o próprio artista define. Toda a multiplicidade de sua obra compôs a exposição de CORpo e alma, que abrangeu 37 anos de produção do artista e suas apropriações de temáticas como conflitos, identidade do indivíduo, morte, solidão e sexualidade. A mostra reuniu 150 obras, teve curadoria de Henrique Luz, e ocupou a Grande Galeria do Palácio das Artes de 13 de dezembro de 2017 até 25 de fevereiro de 2018. O expectador teve contato com as séries Eros Expectante (1980),  A guerra incompreensível (1982), Body Builders (2000-2006),  Anjos e Sereias (1983-1985), Caos (2008-2015), dentre outras.  grande destaque da exposição ficou por conta dos painéis feitos pelo artista em 1998 para a Estação Sumaré do Metrô de São Paulo, com fotos de pessoas comuns, às quais sobrepõe com letras coloridas trechos de poemas de autores brasileiros. Um desses vidros esteve no percurso da exposição, assim como quatro painéis da série Biblioteca (2016), na qual o artista retratou frequentadores da Biblioteca de São Paulo.

 

Fachada do Palácio das Artes durante Exposição de CORpo e alma, do artista Alex Flemming

Sobre o artista Alex Flemming Nasceu na cidade de São Paulo, em 1954, e reside atualmente em Berlim, na Alemanha. Pintor, escultor e gravador, frequentou o Curso Livre de Cinema na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, entre 1972 e 1974. Cursou serigrafia com Regina Silveira e Júlio Plaza, e gravura em metal com Romildo Paiva, em 1979 e 1980. Na década de 1970, realizou filmes de curtas-metragens e participou de inúmeros festivais de cinema. Em 1981, se muda para Nova York, onde permanece por dois anos e desenvolve projeto no Pratt Institute, com bolsa de estudos da Fulbright Foundation. A partir dos anos 1990, realiza intervenções em espaços expositivos e pinturas de caráter autobiográfico, passando a recolher utensílios como móveis, cadeiras e poltronas, para utilizar em assemblages, aplicando tintas, letras ou textos. Foi professor da Kunstakademie de Oslo, na Noruega, entre 1993 e 1994. Em 2002, são publicados os livros Alex Flemming, pela Edusp, organizado por Ana Mae Barbosa, com textos de diversos especialistas em artes visuais; Alex Flemming, uma Poética…, de Katia Canton, pela Editora Metalivros; e, em 2005, o livro Alex Flemming – Arte e História, de Roseli Ventrella e Valéria de Souza, pela Editora Moderna.

Informações

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Gerência de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado