Mostra Edital de Ocupação de Artes Visuais

28/06 - 08/09

Palácio das Artes | Av. Afonso Pena, 1537. Centro. Belo Horizonte

De 28 de junho a 08 de setembro, o Edital de Ocupação de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado traz, para as galerias do Palácio das Artes, as exposições dos artistas selecionados Lorena D’Arc (Leite Derramado), Renata Cruz (Para sempre e um dia) e Rodrigo Arruda (Ecos). Criados a partir de diferentes suportes, os trabalhos têm, em comum, a arte em processo, seja pela pesquisa artística, pelo resgate de técnicas quase obsoletas ou pela essência questionadora da contemporaneidade. Os artistas vão ocupar as galerias Mari’Stella Tristão, Arlinda Corrêa Lima e Genesco Murta, respectivamente.

A mineira Lorena D’Arc apresenta o resultado de uma longa pesquisa em artes visuais que relaciona dois elementos naturais: o leite e a lama, tendo o feminino como ponto de inspiração para as obras. A exposição da paulista Renata Cruz reúne uma técnica quase artesanal, a aquarela, cuja inspiração vem do exercício contínuo de observar o cotidiano e o trivial. Já a exposição do também paulista Rodrigo Arruda tem o vazio de uma galeria como elemento fundamental na concepção do trabalho.

No dia 27 de junho, às 18h30, antes da abertura das exposições do Edital de Ocupação, haverá outra importante atividade no Palácio das Artes. Após seis meses aberta à visitação, a exposição CORTE, da Galeria Aberta Amilcar de Castro, localizada no Jardim interno do Palácio das Artes, entre as galerias Arlinda Corrêa Lima e Genesco Murta será encerrada. Para registrar esse importante momento, a Cia. de Dança Palácio das Artes apresentará o espetáculo-ocupação CORTE – Manifesto Neoconcreto. O encerramento da exposição marca também o início das comemorações do centenário de nascimento de Amilcar de Castro.

Com direção artística de Cristiano Reis e cocriação dos bailarinos da CDPA, a coreografia se baseia em um estudo sobre dimensionalidades, tendo a obra de Amilcar de Castro e o movimento Neoconcreto brasileiro como pontos de partida. A proposta da montagem é refletir a respeito da ocupação da dança em diferentes espaços, seja pela união de corpos e obras ou pelo desdobramento entre coreografia e escultura.

 

Sobre o Edital de Ocupação

Realizado de forma consecutiva desde 2015, o Edital de Ocupação de Artes Visuais é uma importante ferramenta de estímulo à produção artística em âmbito nacional, permitindo o acesso do público a diferentes linguagens. Para a presidente da Fundação Clóvis Salgado, Eliane Parreiras, essa iniciativa abre as portas do Palácio das Artes às mais variadas propostas artísticas. “O Edital de Ocupação de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado é reconhecido por sua diversidade. A cada edição, artistas de Minas e de outros estados ocupam nossas galerias com as mais variadas propostas. O fomento a essa identidade diversa é uma importante diretriz, a qual temos nos atentando sempre”, destaca.

O Edital de Ocupação de Artes Visuais FCS é uma iniciativa já consolidada como evento de destaque no cenário artístico nacional. Sua realização visa fomentar a produção artística contemporânea e a divulgação de novos talentos. Como premiação, os artistas recebem R$4.000,00 (cada), para a montagem das exposições, além de apoio da FCS na divulgação das mostras. Artistas como Adriana Maciel, André Griffo, Bete Esteves, Claudia Tavares, Eder Oliveira, Juliana Gontijo, Luiza Baldan, Luiz Arnaldo, Marcelo Armani, Nydia Negromonte, Patricia Gouvêa, Ricardo Burgarelli e Ricardo Homen já tiveram seus trabalhos contemplados em outras edições.

 

Sobre as exposições

Leite Derramado, de Lorena D’Arc | Galeria Mari’Stella Tristão

Professora de cerâmica da Escola Guignard-UEMG, Lorena D’Arc Oliveira, tem na pesquisa artística o ponto de partida para essa exposição. Retornando ao Palácio das Artes após 20 anos desde sua última exposição individual na instituição, a artista conta para o público uma história de inspiração que começou ainda em 2009, quando teve um sonho em que derramava leite sobre a terra. A partir daí a linha de estudos se voltou para dois elementos carregados de simbolismos e significâncias: o leite e a terra. Da fertilidade ao feminino, cada obra contida na exposição permite diferentes possibilidades interpretativas.

Em Leite Derramado, Lorena apresenta cerca de 19 trabalhos criados para abordar a materialidade do leite e do barro. Obras em diferentes suportes artísticos, como cerâmicas, desenhos, fotografias e instalações, estarão reunidas na Galeria Mari’Stella Tristão, em diferentes séries: Caminhos do Leite19DerrameOcas e lácteasAudumlaLeite para GaiaDo lácteo à lamaÁrtemisMamíferasManga com LeiteÁrvore Láctea e Liames. Em todas as obras, há um intenso diálogo entre a poética da artista, ao escolher esses dois elementos como materiais de pesquisa, e todos os desdobramentos que acarretam no uso dessas matérias na produção dos trabalhos.

“O leite e o barro estão diretamente ligados à nutrição, à fartura, ao conhecimento, como também aos princípios da vida e da morte. Ao compreender a materialidade do leite e do barro, exploro suas características ambíguas, por considerá-los ao mesmo tempo matéria-prima e de natureza simbólica. Deste entendimento que norteia a minha poética nos últimos dez anos, exploro as características específicas, comportamentos e reações do leite e do barro em seus estados crus e cozidos, desenvolvendo trabalhos plásticos que transitam entre diversas mídias como o desenho, a fotografia, objetos cerâmicos e pequenas instalações”, comenta a artista.

Nessa mostra, o público irá se deparar com diferentes possibilidades criativas a partir da união desses dois elementos. Na série Caminhos do Leite, por exemplo, Lorena apresenta um estudo com leite de vaca puro sobre papel em que o calor do ferro é empregado para dar visibilidade a seu desenho de formas arredondadas que aludem a seios, caminhos, cachos ou pencas volumosas, propulsoras de fartura e abundância, como é a essência láctea.

Saindo dos mitos e ancestralidades, a artista reúne duas séries com significados baseados na cultura popular. Manga com Leite é uma instalação de parede e chão que trata da crença criada no período colonial brasileiro, em que os donos de engenho diziam que comer manga com leite fazia mal, com o intuito de que os escravos não consumissem leite. Na parede da galeria, estarão expostas peças de cerâmica de tamanhos variados, remetendo às palmas barrocas. À frente da composição da parede, estará uma mesa composta de um forro de veludo vermelho em contraste a uma leiteira de ferro que emite sons de gotejamento, além de algumas mangas em cerâmica. Neste trabalho, entre o contraste de materiais luxuosos e precários, a artista recorre ao passado, para reafirmar que ainda são notórias as diferenças sociais. Com esta visão, a proposta da artista é de aumentar a quantidade das mangas no decorrer da exposição, em alusão à crescente desigualdade social no Brasil e no planeta.

Outro acontecimento marcante na história do povo mineiro, também passa pelo trabalho de Lorena D’Arc. Na série 19, 19 objetos de porcelana relembram as 19 vítimas fatais do desastre ocorrido em 5 de novembro de 2015 na cidade de Mariana. Sobre as tigelas de porcelana branca, manchas e máculas da lama refinada da mineradora é utilizada como pigmento.

Para ela, o retorno ao Palácio das Artes é um momento gratificante em sua carreira. “Acho o Edital de Ocupação uma iniciativa importante para a divulgação da produção artística atual. Eu, por exemplo, estou de volta ao Palácio das Artes 20 anos depois da minha exposição em 1999 na Arlinda Corrêa. Expor junto a outros artistas simultaneamente e conhece-los, é uma condição interessante de criarmos novas ligações. Outra questão importante é apresentar ao público nesta exposição, o resultado de meu doutorado em Artes concluído recentemente pelo Instituto de Artes da UNESP”, finaliza.

Lorena D’Arc é mineira, artista multimídia, graduada em Artes Plásticas pela Escola Guignard-UEMG, mestra em Artes pela ECA-USP e doutora em Artes Visuais pelo IA-UNESP. Participou de diversas exposições coletivas nacionais e internacionais. Prêmio na 2nd Shanghai International Modern Pot Art Biennial Exibition, Shanghai, China (2010), Menção Honrosa no 2º Salão Nacional de Cerâmica de Curitiba/PR em 2008. Curadora convidada para o 5º Salão Nacional de Cerâmica no MAC Curitiba/PR em 2016. Seu trabalho relaciona-se a elementos naturais, à natureza, ao cotidiano doméstico, que de algum modo registram a passagem do tempo, assim como, aos princípios de vida e morte. Ao explorar características, comportamentos e reações de materiais em seus estados crus e processados, prioriza matérias que possuem a ambiguidade de serem ao mesmo tempo matéria-prima e símbolo. Sua produção suscita relações entre arquétipos ancestrais e contemporâneos.

 

Para sempre e um dia, de Renata Cruz | Galeria Arlinda Corrêa Lima

O simples ato de observar o cotidiano e transformá-lo em arte norteia o trabalho da paulista Renata Cruz. Em sua mais recente exposição, Para sempre e um dia, a artista vai transformar a Galeria Arlinda Corrêa Lima em uma casa japonesa de papel, recoberta por azulejos portugueses. As imagens são em sua maioria desenhos realizados em residências artísticas no Japão e em Portugal entre 2015 e 2016. Mas há também trabalhos posteriores com elementos do seu ateliê em São Paulo e das viagens à Floresta Amazônica.

Nessa imersão por diferentes culturas, Renata Cruz traz reproduções de uma beleza efêmera, carregada de sentidos e afetos, que, pelos desenhos da artista, permanecem, mesmo que tenham durado pequenos instantes. Fazendo sua estreia em Belo Horizonte, ela propõe um encontro do público com o registro do cotidiano por meio de uma das mais tradicionais técnicas artísticas: a aquarela.

Cerca de 600 desenhos de mesmo tamanho serão afixados nas paredes da galeria, em um site-specific, relacionando a arquitetura do espaço à afetividade proposta por Renata ao mesclar suas experiências tanto no Japão quanto em Portugal. “A aquarela é meu material do cotidiano. Existe para mim uma facilidade nele, que é me permitir trabalhar com desenho e cores em qualquer lugar levando na bolsa apenas um pequeno estojo de aquarela e alguns pincéis”, comenta Renata sobre sua relação com o material da exposição.

A inspiração para um registro catalogado de objetos do cotidiano começou durante a residência que Renata fez no Aomori Contemporary Art Centre, em Aomori em 2016, no Japão. O encontro com a outra cultura resultou em uma série de registros de objetos rotineiros, como vasilhas, copos, jarros, cacos, folhas, flores, frutas, cadernos, cogumelos, canetas, sementes, embalagens e o tradicional artesanato têxtil local, feito principalmente na cor azul. Eles começaram a criar relações com a experiência em Lisboa, no Carpe Diem Arte e Pesquisa, antiga casa do Marquês de Pombal, onde instalou desenhos em uma sala revestida de azulejos, cujo predomínio da cor azul, foi decisivo para a realização do trabalho. É essa junção de culturas e observações que compõe o trabalho exposto na galeria Arlinda Corrêa Lima.

Ao assinalar e organizar as pequenas coisas que formam a vida e que passam despercebidas na maior parte do tempo, Renata cria uma narrativa contra a finitude e, também, um convite à atenção prolongada. Os textos presentes nos trabalhos, que estão em português, inglês, japonês e castelhano, pertencem a escritores como Virgínia Woolf, Clarice Lispector, Enrique Vila Matas, Osamu Dazai, Borges e outros.

Assim como em outros locais por onde a exposição já passou, como Madrid, na Espanha, e Ribeirão Preto, em São Paulo, haverá a criação de uma aquarela inédita para Belo Horizonte. A obra será produzida ao longo do período de montagem da mostra, enquanto Renata observa a rotina e a dinâmica do Palácio das Artes.

“Espero que o público possa caminhar pela galeria e observar esses detalhes que me inspiram. Não há um roteiro certo para ver a exposição, só mesmo um convite para que o visitante crie a narrativa que melhor fizer sentido para ele. A ideia de imaginar as pessoas andando pela galeria Arlinda Corrêa Lima e conectando imagens já me inspira num desdobramento desse trabalho”.

 

Ecos, de Rodrigo Arruda | Galeria Genesco Murta

O estudo da arquitetura aliado à visão questionadora e provocativa da arte contemporânea norteiam a exposição Ecos, do paulista Rodrigo Arruda. Nessa segunda passagem do artista por Belo Horizonte, a Galeria Genesco Murta é, também, um importante elemento de ligação na proposta artística. Oito trabalhos em dimensões variadas ocupam o espaço expositivo de maneira articulada, para questionar a permanência ou a ausência do público dentro da galeria.

Ecos é fruto dos anos de estudo de Rodrigo ainda na graduação. As vertentes contemporâneas sempre direcionaram a linha criativa do artista, que, para essa exposição no Palácio das Artes, propõe questões filosóficas e simbólicas. “Vejo muitas exposições que já vêm mastigadas para o visitante, como se certo atrito entre o trabalho e o público tivesse que ser evitado. Essa exposição vai na contramão disso”, comenta.

Nessa proposta artística, Rodrigo trabalha questões de ausência e preenchimento de um espaço artístico. Aproveitando todas as dimensões da Genesco Murta, o artista reúne obras singulares, como um prego de vidro, fios de tela, cubo de acrílico, chapa de vidro, papel furado e fios de argila. O distanciamento dessas obras dentro da galeria cria uma zona de tensão que intensifica a sensação de vazio no ambiente.

A expografia também cumpre papel importante, já que os trabalhos mais discretos e imperceptíveis ocupam as maiores paredes. Obras com aproximações mais óbvias e dimensões maiores serão colocados em paredes diferentes, para acentuar as relações mais sutis entre cada peça, e também para criar uma narrativa que amarre os trabalhos como um todo, e não apenas crie pares isolados dentro do conjunto.

E é por meio de uma galeria ocupada com obras que dialogam com o vazio que o artista pretende provocar o público. Para Rodrigo, uma galeria não deve apenas ser um local de passagem para o visitante, mas um ambiente que desperte alguma sensação, seja negativa ou positiva.

“Se a pessoa não estiver interessada é como se o trabalho não tivesse forma, como se de fato não estivesse ali. É através do interesse que o visitante vai poder adentrar o trabalho e questioná-lo, elaborar um sentido próprio a ele que não necessariamente vai coincidir com o que eu pensei em primeiro lugar”, finaliza Rodrigo.

Rodrigo Arruda é artista paulistano formado em artes visuais na USP. Possui trabalhos no acervo do Museu de Arte do Rio, Museu de Arte de Ribeirão Preto, Prefeitura de Santo André e na coleção KERN (Berlim). Realizou exposições no Brasil, nos Estados Unidos e na Alemanha, em instituições como: Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, Centro Cultural São Paulo, Museu do Estado do Pará, Oficina Cultural Oswald de Andrade, Museu de Arte de Ribeirão Preto, SESC Ribeirão Preto, Ateliê 397, Galeria Sancovsky, Prefeitura de Santo André, entre outros. Em 2015 foi pesquisador visitante da Ohio State University (EUA) e em 2018 recebeu o prêmio aquisição do Salão de Arte de Santo André.

 

VISITAS MEDIADAS

Com o propósito de ampliar a experiência estética de públicos diversos e difundir conceitos da arte e cultura contemporânea, a Fundação Clóvis Salgado oferece visitas mediadas às galerias do Palácio das Artes e CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais.

As Visitas Mediadas necessitam de agendamento, são gratuitas e acontecem de terça a sexta, às 9h30, 14h 19h, têm a duração aproximada de 1 hora e 30 minutos e são realizadas pelos professores da Escola de Artes Visuais do CEFART.

ASSESSORIA AO PROFESSOR E EDUCADOR

Oferecemos acompanhamento para professores e educadores como apoio ao planejamento da visita de grupos à exposição. A assessoria é gratuita e depende de agendamento prévio.

COMO AGENDAR? 

Os agendamentos para Visitas Mediadas e Assessoria ao Professor e Educador são realizados exclusivamente pelo e-mail agendamento.galerias@fcs.mg.gov.br.

 

Este evento tem correalização da APPA – Arte e Cultura. 

Informações

Local

Palácio das Artes | Av. Afonso Pena, 1537. Centro. Belo Horizonte

Horário

Intervenção da Cia. de Dança Palácio das Artes | Encerramento da exposição CORTE | 18h30

Classificação

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Informações para o público

31 3236-7400