Créditos: Paulo Lacerda | ASCOM FCS

A Fundação Clóvis Salgado, por meio da Associação Pró-Cultura e Promoção das Artes – APPA, abriu edital para a realização do VI Concurso para Jovens Solistas da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Pela primeira vez, desde sua criação em 2010, o concurso vai premiar, além de cantores e instrumentistas, um jovem regente. As inscrições se encerraram no dia 30 de maio e, no dia 4 de junho, foram divulgados os vencedores das modalidades Canto e Instrumento, além dos selecionados para a próxima prova da modalidade Jovem Regente, em que os jurados serão os membros da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Todos os vencedores se apresentarão nos dias 10 e 11 de julho junto da OSMG, em concertos no Grande Teatro do Palácio das Artes. 

Presidida pelo maestro Roberto Tibiriçá, a banca examinadora foi composta, também, pelo maestro titular da OSMG Silvio Viegas, o maestro assistente e primeiro  trompetista da OSMG Sérgio Gomes, a maestrina do Coral Lírico de Minas Gerais Lara Tanaka, o maestro da Orquestra Jovem do Centro de Formação Artística e Tecnológica – Cefart, André Brant, o spalla da OSMG Alexandre Kanji, a pianista da OSMG Cenira Schreiber, o primeiro clarinetista da OSMG Walter Júnio e pela Diretora de Produção Artística da FCS, Cláudia Malta.

Na esfera da música, concursos são uma etapa importantíssima para o solista ou regente, uma grande oportunidade para mostrar seu trabalho no palco com uma orquestra profissional. Para Claudia Malta, orquestras oficiais devem abrir as portas para a juventude: “A FCS tem como missão promover ações que possam dar oportunidades aos jovens talentos. O Concurso para Jovens Solistas é importantíssimo para eles porque mesmo quem não vence se apresenta para pessoas que escalam solistas, para óperas e concertos”, explica. A preparação para um concurso e a percepção das suas limitações são, também, etapas muito valiosas na formação de um músico. O maestro titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Silvio Viegas, ressalta esse valor da competição além da vitória: “Quando você participa de um concurso, está num ambiente profissional que te coloca em situações comuns no cotidiano do músico. Você aprende muito com o que os professores e maestros falam, com seus colegas e principalmente com seus erros. É muito bom para o músico quando ele não se ilude com a vitória e procura ter percepção de suas limitações para superá-las”, comenta. 

Créditos: Paulo Lacerda | ASCOM FCS

Presidente da banca examinadora e responsável pela criação do Concurso da FCS em 2010, o maestro Roberto Tibiriçá considera a disputa, também, um projeto pedagógico. “O concurso valoriza não só o jovem, como também premia indiretamente os professores, porque são os educadores responsáveis por esse sucesso”. Para Tibiriçá, o Concurso da FCS é fruto de um trabalho mais antigo realizado pelo seu grande mestre, Eleazar Carvalho. “Ele foi um grande maestro brasileiro que sempre se preocupou com a juventude, e, desde que faleceu, me propus a levar esse concurso para onde fosse. Minas Gerais já está na sexta edição e isso me deixa muito feliz e realizado”, conta o maestro. 

Créditos: Cláudia Malta | DIART FCS

Oportunidade inédita – A modalidade de Jovem Regente foi uma novidade da edição de 2018 que se fazia necessária devido à natureza da profissão. Segundo Viegas e Tibiriçá, formar-se enquanto maestro no Brasil envolve competitividade, cobrança, muito estudo das obras, de outras línguas e desenvolvimento de boa relação interpessoal. Um aspecto que torna o campo instável é a necessidade de uma orquestra para que o regente possa atuar, ao contrário, por exemplo, do instrumentista. Isso torna concursos como o de Jovem Regente oportunidades únicas, já que existem poucas orquestras. “O sonho de cada estudante é se profissionalizar. No caso do músico, o sonho é se apresentar num concerto de uma grande orquestra”, comenta o Maestro Tibiriçá. Para Viegas, quem tem essa ambição deve estudar muito e aproveitar todas as oportunidades que surgirem. “Ir a festivais, concursos, conhecer novos profissionais, fazer contato e ir construindo seu percurso aos poucos. É assim que se consegue um lugar ao sol para consolidar sua carreira”.

A última etapa de avaliação para o Jovem Regente é uma votação dos membros da OSMG, um método que o maestro Viegas considera muito justo, pois o candidato passa pelo crivo de sessenta pessoas ao invés de um pequeno grupo. “Por mais que a banca avalie sem qualquer favorecimento, é possível cair numa armadilha de gosto pessoal pela sonoridade de um instrumento, pela forma como alguém fraseia ou pela postura do gesto. Com tantas pessoas julgando, isso se pulveriza e a decisão vem do ponto de vista daqueles que vão trabalhar com ele”, explica, reconhecendo que os membros da Orquestra também o avaliam no cotidiano. “Os músicos sabem se estudei a partitura, se estou sendo claro ou se não estou bem. Mesmo quem já atua como regente é avaliado todos os dias”. 

O spalla da OSMG, Alexandre Kanji, enfatiza que a participação da Orquestra como banca avaliadora é, também, um momento importante de engrandecimento para os músicos profissionais, que participam de maneira ativa e demonstram que sabem reconhecer um grande regente. “Cada um avalia o maestro da sua forma particular como músico de orquestra, mas a forma de avaliação é muito parecida para todos os músicos. Nós buscamos características importantes como gestos claros, conhecimento da partitura, conhecimento musical do estilo da obra, sociabilidade e boa comunicação com a orquestra. Mais do que um simples regente, um maestro deve ser um bom diplomata”, finaliza Kanji. 

O nível técnico dos competidores surpreendeu e emocionou a banca durante as audições, demonstrando o grande interesse e dedicação dos jovens. Para tanto, a maestrina Lara Tanaka ressalta o esforço necessário para esse desempenho na área: “Belo Horizonte é uma cidade abençoada de cantores líricos extremamente talentosos, mas isso não é tudo. É necessário muito investimento, muitas aulas contínuas de canto, de diversos idiomas, de expressão corporal e consultas de manutenção com um bom fonoaudiólogo”. 

Créditos: Cláudia Malta | DIART FCS

Os candidatos dos instrumentos de sopro foram muito elogiados pelos avaliadores, e o clarinetista Walter Júnio atribui o sucesso ao esforço dos alunos e o alto nível de seus professores, responsáveis pela preparação intensa que precede o concurso. “A dedicação para o concurso mostra a preparação diária e constante na carreira do músico, por isso foi uma experiência fantástica ver o alto nível em que os jovens instrumentistas estão hoje, ainda mais na situação atual do Brasil, em que a música erudita não recebe o devido valor”. O maestro Tibiriçá destaca, também, os jovens revelação que não foram selecionados para se apresentar com a OSMG, mas que espantaram pelo talento. “Ficamos emocionados com alguns candidatos muito jovens que ainda não amadureceram o suficiente para subir ao palco, mas que logo estarão prontos e merecem esse reconhecimento”, comenta. Mesmo com esse grande envolvimento dos jovens com a música, o meio artístico ainda sofre alguns percalços que colocam em risco a continuidade de iniciativas como o Concurso Jovens Solistas. O maestro André Brant vê, também, uma perspectiva positiva para o meio em relação ao nível dos participantes do Concurso, mas ressalta a necessidade de estímulo para que esses jovens continuem a carreira musical no Brasil. “O problema é que quase sempre dependemos de incentivos, e nos últimos anos enfrentamos um decréscimo nos financiamentos da arte em geral. Espero que o concurso continue acontecendo, que não haja uma interrupção. É uma ótima e importante forma de incentivar tanto os músicos quanto outras orquestras a fazerem o mesmo”, comenta. Nos anos de 2014 e 2015 o Concurso não foi realizado por falta de recursos, mesmo representando uma oportunidade única para os jovens solistas, e, por isso, é consenso entre os membros da banca que sua continuidade é primordial.

A pianista da OSMG, Cenira Schreiber, vê na disputa uma oportunidade para a juventude que não pode ser deixada de lado, pois os profissionais das próximas gerações precisam de espaço. “Me sinto honrada em participar desse concurso e poder ouvir tantos jovens que passam anos estudando para ter oportunidade de um local para se apresentar, numa colaboração entre grandes artistas em que todos participam desse momento importante da formação e aprimoramento desses jovens que serão parte do futuro da música erudita”.