Inauguração da Galeria Aberta Amilcar de Castro e da exposição Corte e espetáculo da Cia. de Dança Palácio das Artes: Corte | Manifesto Neoconcreto

publicado por Tayna Souza em 13 de dezembro 2018

No próximo dia 17 de dezembro, a Fundação Clóvis Salgado dá sequência à série de inaugurações em 2018 e apresenta ao público da capital mineira a Galeria Aberta Amilcar de Castro. O espaço, que está localizado entre as galerias Arlinda Corrêa Lima e Genesco Murta no Palácio das Artes, vai abrigar a exposição Corte, uma mostra de média duração que reúne esculturas em diferentes tamanhos de um dos principais expoentes do neoconcretismo brasileiro: Amilcar de Castro. A curadoria é do presidente da FCS, Augusto Nunes-Filho.

A inauguração da Galeria Aberta Amilcar de Castro reforça a diretriz da FCS em valorizar a arte produzida em Minas Gerais durante a atual gestão (2015-2018). Neste ano, inclusive, toda a programação artística da instituição foi norteada por diferentes manifestos, dialogando diretamente com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, que completa 90 anos em 2018. A exposição permanecerá até 27 de junho de 2019, data de início da comemoração do centenário de nascimento do artista, um dos signatários do Manifesto Neoconcreto.

De acordo com Augusto Nunes-Filho, apresentar ao público um novo espaço expositivo no Palácio das Artes é, ao mesmo tempo, um reconhecimento do legado do artista e um olhar mais demorado sobre a produção artística em diferentes suportes, como a escultura. “Amilcar de Castro tem papel importante no cenário artístico brasileiro gozando também, há muito, de reconhecimento internacional. Por ser um escultor de mão cheia, foi justa essa vertente escolhida pela Fundação Clóvis Salgado para lhe prestar merecida homenagem com a nomeação do mais recente espaço expositivo do Palácio das Artes, a Galeria Aberta Amilcar de Castro”, destaca o presidente.

CORTE traça uma linha do tempo na história da produção de Amilcar de Castro ao reunir esculturas produzidas em diferentes momentos da carreira do artista. Vindas diretamente do Instituto Amilcar de Castro, em Nova Lima, as obras representam trabalhos em grande e pequena escala, exemplificando a visão que o escultor tinha sobre dimensionalidades, percepções espaciais e manipulação do ferro.

 

Amilcar ao ar livre

Para Ana de Castro, diretora do Instituto Amilcar de Castro, a exposição é uma grande homenagem ao escultor e uma lembrança daquilo que mais inspirava o trabalho de Amilcar. “Ao explorar com grande intensidade espaços abertos do Palácio das Artes e nomear este espaço de Galeria Aberta Amílcar de Castro, a Fundação Clóvis Salgado faz referência instantânea ao passado do escultor e cria um lugar onde a percepção se exerce mesclando elementos concretos e orgânicos. A prática sensível conduz a vivências de grande apelo visual”.

Um dos destaques do acervo é a obra Estrela, uma escultura em ferro, inspirada em um trabalho anterior de Amilcar de Castro, que concedeu ao artista seu primeiro prêmio. Datada do início dos anos 2000, a obra mescla a força do ferro com a sutileza e a precisão dos cortes característicos do escultor mineiro. Ao contrário das outras obras, a peça ficará exposta no Hall de entrada do Palácio das Artes.

As demais esculturas que integram a exposição CORTE são obras que perpassam as décadas de 1950 a 1990. Com dimensões variadas, algumas chegando a medir pouco mais de 30cm. Já outras esculturas chegam aos 2m de comprimento e pesam mais de 5 toneladas.

“CORTE é uma seleção de obras que reúne um amplo e significativo acervo do trabalho de Amilcar. É, também, uma homenagem à trajetória do artista que, aluno da Escola Guignard, observava e se inspirava na paisagem do Parque Municipal. Com essa galeria, celebramos o passado do escultor ao mesmo tempo em que reverenciamos a mistura do concreto, no caso, as esculturas de Amilcar, com a leveza de um espaço aberto, de livre circulação e conectado ao parque”, destaca Augusto Nunes-Filho.

 

A dança e a escultura

Integrando seus corpos artísticos às diferentes atividades realizadas ao longo desta gestão, a FCS também vai promover a estreia do espetáculo Corte – Manifesto Neoconcreto, da Cia. de Dança Palácio das Artes. A coreografia, que tem direção de Cristiano Reis e cocriação dos bailarinos da CDPA, dialoga diretamente com o trabalho de Amilcar de Castro e o ambiente da Galeria Aberta. Em uma pesquisa coreográfica que envolveu visitas ao Instituto Amilcar de Castro e estudos sobre o neoconcretismo brasileiro, a proposta da montagem é refletir a respeito da ocupação da dança em diferentes espaços, seja pela união de corpos e obras ou pelo desdobramento entre coreografia e escultura.

De acordo com Cristiano Reis, Corte – Manifesto Neoconcreto é, assim como as obras de Amilcar de Castro, um estudo sobre dimensionalidades. “Essa coreografia não é puramente estética. Ela evoca um corpo em ação, um ato de ocupar um espaço, de trabalhar as dimensionalidades que podemos habitar por meio da dança”, comenta o diretor.

Fábio Retti será o responsável pela iluminação do espetáculo. A ideia é que as luzes sejam aliadas ao ambiente da Galeria Aberta e à própria concepção da montagem. Segundo Cristiano Reis, a luz foi planejada para criar mais dramaticidade à apresentação. “Estamos pegando um pouco da ideia do neoconcreto, de trabalhar a subjetividade da criação artística”, comenta. E a sonoplastia de Corte – Manifesto Neoconcreto será uma espécie de resgate do ateliê de Amilcar de Castro. A trilha sonora se agarra a sons de ferramentas para corte de metais e outras sonoridades características do trabalho de um escultor que tem o ferro como matéria-prima de suas obras.

 

Amilcar Augusto Pereira de Castro (1920 – 2002)

Foi escultor, gravador, desenhista, diagramador, cenógrafo, professor. Mudou-se com a família para Belo Horizonte em 1935 e estudou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, de 1941 a 1945. A partir de 1944, frequentou curso livre de desenho e pintura com Guignard (1896 -1962), na Escola de Belas Artes de Belo Horizonte, e estudou escultura figurativa com Franz Weissmann (1911-2005). No fim da década de 1940, assumiu alguns cargos públicos, que logo abandonou, assim como a carreira de advogado. Paralelamente, em seus trabalhos, dá-se a passagem do desenho para a tridimensionalidade.

Amilcar foi aluno de Guignard em Belo Horizonte. Da capital mineira mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi um dos signatários do Manifesto Neoconcreto, que marcou a ruptura com o grupo paulista dos Concretos. O escultor mineiro virou referência para os artistas brasileiros e, especialmente, para seus alunos na Escola Guignard. Suas esculturas, fundadas quase exclusivamente em corte e dobra sobre ferro e madeira, impressionam pela economia de meios e pela lição que oferecem sobre a capacidade afirmativa do gesto e o fato de realizarem a passagem do plano para o volume. 

 

Neoconcretismo ou Movimento Neoconcreto

Corrente das artes (plásticas, escultura, performances, literatura) que surgiu em fins da década de 50 no Rio de Janeiro, em oposição ao Movimento Concretista, de São Paulo. O Neoconcretismo, influenciado pelas ideias da fenomenologia do filósofo francês Merleau-Ponty (1908-1961), foi considerado como o “divisor de águas” na história das artes visuais no Brasil, sendo seus precursores o poeta maranhense Ferreira Gullar e a artista plástica mineira Lygia Clark.

O Movimento Neoconcreto (Grupo Frente) surgiu no Rio de Janeiro em prol do subjetivismo da arte e da criação artística, o qual criticava o racionalismo, objetividade e o dogmatismo geométrico dos concretistas paulistas (Grupo Ruptura). Para tanto, essa contradição de ideias foram os elementos propulsores dos ideais dos artistas neoconcretos, ou seja, propor uma arte mais libertária contra o cientificismo técnico, o exacerbado racionalismo da “arte pela arte” em que estavam pautados os concretistas ortodoxos de São Paulo. Os concretistas paulistas acreditavam que a forma era o principal elemento da arte, em detrimento do conteúdo, visto como mais importante pelos artistas neoconcretos.

 Este evento tem correalização da APPA – Arte e Cultura.