Esqueçam o inesquecível! Esqueçam a Chica da Silva, em “O Romanceiro da Inconfidência” (1953), de Cecília Meireles. Esqueçam principalmente o enorme sucesso do filme “Xica da Silva” (1976), de Cacá Diegues, com seu humor quase infantil e insistente erotismo que levaram três milhões de pessoas aos cinemas e que acaba de ser restaurado. Esqueçam a contagiante – até hoje, 50 anos depois – música-tema do filme, assinada por Jorge Ben Jor e Roberto Menescal. Esqueçam, como se fosse possível, os protagonistas do mesmo filme, Zezé Motta como a ex-escravizada – e “Rainha dos Diamantes” – Chica, e Walmor Chagas como seu “escravo sexual e amoroso”, o contratador de diamantes João Fernandes. Esqueçam ainda a novela “Xica da Silva” (1996), de Walcyr Carrasco, com Taís Araújo no papel principal. Reforçando, esqueçam o episódio sobre Chica da Silva em “O Romanceiro da Inconfidência”, mas lembrem-se da quase profecia de Cecília Meireles, no mesmo livro: “Ainda vai chegar o dia de nos virem perguntar: Quem foi a Chica da Silva, que viveu neste lugar”.
O dia chegou!
Continuando sua temporada de óperas de 2026, a Fundação Clóvis Salgado (FCS) apresenta sua mais nova produção, a ópera inédita “Chica da Silva”, um grande espetáculo que recupera, sob novas luzes, uma das principais personagens da história mineira. Com pré-estreia dia 12 de setembro, em Diamantina, onde “reinou” Chica da Silva, quando ainda era Arraial do Tijuco (ou Tejuco) e récitas nos dias 19, 21 e 23 de setembro, no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes, a ópera encomendada pela FCS tem música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcos Bernstein e Flávia Bessone.
Participam da montagem os três corpos artísticos da FCS: Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico de Minas Gerais e Cia de Dança Palácio das Artes. A produção tem direção cênica de Julianna Santos, direção musical e regência de André Brant, coreografia de Regina Advento, figurinos de William Rausch, cenários de André Cortez e iluminação de Wagner Pinto. A direção-geral é de Cláudia Malta, diretora artística da Fundação Clóvis Salgado.
A soprano Marly Montoni, uma das mais importantes de sua geração, interpreta o papel-título da ópera, enquanto o tenor Ewandro Stenzowski dá vida ao contratador João Fernandes, companheiro da protagonista em uma intensa e contraditória relação. Grande equipe e elenco se unem para trazer ao público uma nova visão da história de uma personagem já muito retratada: entre a lenda e a figura humana, qual é a real Chica da Silva?
Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva (ou Xica da Silva), é emblemática personagem do Brasil colonial do Século 18, famosa por sua fulgurante ascensão social. Nascida escravizada, tornou-se uma das mulheres mais ricas e influentes da região de mineração de diamantes em Minas Gerais.
A ópera “Chica da Silva”, afastando-se da ficção, está muito mais próxima do brilhante estudo histórico “Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes – O Outro Lado do Mito” (2003), da historiadora Júnia Ferreira Furtado, que separa os fatos reais da visão popular que sempre a pintou como mulher fatal e hipersexualizada.
“Bruxa, sedutora, heroína, rainha ou escrava: afinal, quem era Chica da Silva?”
Chica nasceu entre 1731 e 1735 no Arraial do Milho Verde (Serro). Ela era filha de Antônio Caetano de Sá, um militar português, com Maria da Costa, uma escravizada. Em sua juventude, Chica é vendida ao médico Manuel Pires Sardinha, com quem tem seu primeiro filho, Simão Pires Sardinha.
Em 1753, Chica é comprada pelo desembargador João Fernandes de Oliveira, riquíssimo controlador da extração dos diamantes no Tijuco (Diamantina). Ele a alforria logo depois. Ainda que a Igreja e as leis coloniais proíbam seu casamento oficial, eles vivem em regime de concubinato estável durante 17 anos. Tiveram 13 filhos, todos reconhecidos pelo pai e portando seu nome, fato raro à época.
Em 1770, João Fernandes volta a Portugal para receber a herança do pai, levando consigo alguns de seus filhos homens, que receberam educação e ocuparam importantes cargos no Reino. Ele deixa para Chica imensa fortuna, uma grande casa (ainda hoje preservada) e numerosos escravizados. Chica utiliza sua riqueza para a educação dos filhos nas melhores escolas europeias e para casar suas filhas com homens brancos da elite local.
Ela morre no dia 15 de fevereiro de 1796. Consolidando sua integração à mesma elite branca, ela é enterrada no interior da igreja de São Francisco de Assis, privilégio então reservado às pessoas mais ricas e influentes. Afinal, quem foi, ou quem era, Chica da Silva? Uma rainha excêntrica que dominava seu amante por seus charmes e sensualidade ou uma mulher inteligente que soube utilizar as brechas jurídicas e econômicas do sistema colonial para se emancipar?
Um símbolo de rebelião, de liberdade para seu povo ou uma mulher integrada ao sistema, que chegou a possuir 104 escravizados sem libertar nenhum deles em seu testamento? Uma pária rejeitada pela alta sociedade ou uma respeitada dama, membra de fechadas irmandades religiosas como a de São Francisco do Carmo?
Sagaz, romântica, linda, aproveitadora, perdulária, apaixonada, sobrevivente, pragmática, vítima, algoz… Mito? Qual a verdadeira Chica da Silva?
Chica da Silva não era uma abolicionista, nem uma simples sedutora, mas um perfeito exemplo de ascensão, em uma sociedade profundamente racista e patriarcal? É o que a ópera “Chica da Silva” tentará responder, tornando a mulher Chica, agora sim, eterna como os diamantes.
A ópera “Chica da Silva” é realizada pelo Ministério da Cultura, Fundação Clóvis Salgado, Leleu Produções e Eventos e Fox Produções. As atividades da Fundação Clóvis Salgado têm a Cemig como mantenedora, Patrocínio Master do Instituto Cultural Vale e do Grupo Fredizak, Patrocínio Prime do Instituto Unimed-BH e do Instituto AngloGold, Patrocínio Plus da Vivo e correalização da APPA – Cultura & Patrimônio. A ação é viabilizada por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
FICHA TÉCNICA DA ÓPERA “CHICA DA SILVA”
Equipe
Música original: Guilherme Bernstein
Libreto original: Marcos Bernstein e Flávia Bessone
Direção-Geral: Cláudia Malta
Direção Musical e Regência: André Brant
Concepção e Direção Cênica: Julianna Santos
Assistente de Direção Musical: Lucas Viana
Preparação do Coral Lírico de Minas Gerais: Maria Clara Marco Fernández
Assistência de Direção e Direção de Palco: Felipe Venâncio
Coreografia: Regina Advento
Cenografia: André Cortez
Figurino: William Rausch
Iluminação: Wagner Pinto
Produção-Executiva: Laenne Santos
Elenco
Chica da Silva (Soprano): Marly Montoni
João Fernandes (Tenor): Ewandro Stenzowski
Antônio Pereira (Baixo-barítono): Leandro Abreu
Bonifácio Antunes (Barítono): Santiago Villalba
Caetano Matoso (Tenor): Giovanni Tristacci
Costureira 1 (Soprano): Edna D’Oliveira
Costureira 2 (Soprano): Andreia de Paula
Assunção do Brocado (Mezzosoprano): Edineia Oliveira
Costureirinha (Soprano): Indaiara Patrocínio
Menino Mensageiro: Isadora Ficher Fonseca
Rita, Filha de Chica (Soprano): Chiara Santoro
Ana, Filha de Chica (Mezzosoprano): Edileuza Ribeiro
Mucama 1 (Soprano): Edna D’Oliveira
Mucama 2 (Soprano): Andreia de Paula
Padre Antonil (Barítono): Lício Bruno
Zima (Soprano): Ariádna Fernandes
Adario (Tenor): Júlio Mendonça
Esposa 1 (Soprano): Indaiara Patrocínio
Esposa 2 (Soprano): Melina Peixoto
Esposa 3 (Mezzosoprano): Bárbara Brasil
Imagem de Chica 1 (Soprano): Andreia de Paula
Imagem de Chica 2 (Soprano): Edna D’Oliveira
Imagem de Chica 3 (Soprano): Edineia Oliveira
Tenor Colonial (Tenor): Júlio Mendonça