Celebrando o centenário de nascimento de Jerry Lewis, a mostra “A Invenção do Caos” apresenta uma seleção de filmes de um dos maiores nomes da comédia norte-americana e uma das figuras mais inventivas da história do cinema. Ator, diretor, roteirista, produtor e um performer de extraordinária fisicalidade, Lewis transformou o humor em uma verdadeira arte do descontrole, criando personagens permanentemente deslocados do mundo ao redor: corpos que tropeçam, máquinas que falham, ambientes que entram em colapso e situações cotidianas levadas ao absurdo.
Em sua origem grega, a palavra “caos” não traduzia apenas a ideia de algum tipo de “confusão”, ela designava, ao invés disso, uma espécie de vazio inaugural e primordial – uma abertura anterior à ordem das coisas, onde instabilidade, movimento e transformação contínua se atravessam. Poucos artistas compreenderam tão profundamente essa potência essencial, dinâmica e transformadora do caos quanto Jerry Lewis. Em seus filmes, o deslocamento do ordinário – ampliado, distorcido e entregue ao riso – constitui a própria arte.
Nascido em 1926, Jerry Lewis alcançou enorme popularidade inicialmente ao lado de Dean Martin, formando uma das duplas cômicas mais famosas da história do entretenimento norte-americano. A partir do fim da parceria, no final dos anos 1950, desenvolveu uma carreira profundamente autoral como cineasta, realizando algumas das obras mais radicais e influentes da comédia hollywoodiana dos anos 1960. Filmes como O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy, 1960), O Terror das Mulheres (The Ladies Man, 1961), Um Mandalete Muito Trapalhão (The Errand Boy, 1961) e O Professor Aloprado (The Nutty Professor, 1963) revelam um artista interessado em reinventar o espaço cinematográfico através do movimento, da gag visual, da experimentação sonora e da coreografia do corpo em cena.
A programação da mostra reúne títulos realizados entre 1960 e 1965, período em que Lewis alcança plena liberdade criativa dentro da indústria hollywoodiana. Os filmes apresentados evidenciam tanto sua capacidade de provocar gargalhadas quanto a sofisticação formal de uma obra que influenciou cineastas em diferentes partes do mundo. A seleção inclui ainda O Rei da Comédia (The King of Comedy, 1982), de Martin Scorsese, em que Jerry Lewis surge já como uma figura melancólica e fantasmática do universo do espetáculo, reafirmando a permanência de sua imagem na cultura audiovisual contemporânea.
Ao revisitar sua obra cem anos após seu nascimento, A Invenção do Caos: Jerry Lewis propõe não apenas uma homenagem a um artista fundamental do cinema do século XX, mas também uma oportunidade de apresentar sua comicidade singular a novas gerações de espectadores. Em um mundo cada vez mais automatizado, veloz e exaustivo, os filmes de Jerry Lewis seguem lembrando que o riso pode nascer justamente da falha, do excesso, do improviso e da desordem, transformando o caos em invenção cinematográfica.