Depois de uma apresentação histórica com lotação máxima em Belo Horizonte, Elomar Figueira Mello retorna ao Palácio das Artes para um novo encontro com o público mineiro, em um espetáculo inédito que une música, poesia, dramaticidade e transcendência estética.
Em “O Rei do Fogo e do Luar”, Elomar conduz o público por uma travessia sonora inspirada nos versos de sua obra sinfônica “Fantasia Leiga para um Rio Seco”, especialmente na emblemática “Incelença pra terra que o sol matou”, mergulhando o espectador em paisagens do Sertão Profundo – território mítico que atravessa toda a sua criação artística.
Compositor, violonista, dramaturgo e autor de uma obra singular na música brasileira, Elomar consolidou-se como um dos maiores nomes da cultura nacional. Criador de um universo próprio, marcado pelo diálogo entre o erudito e a tradição oral sertaneja, construiu ao longo de décadas uma produção artística de profunda identidade estética, reunindo óperas, cantorias, sinfonias e canções que transformaram sua obra em referência da música de concerto brasileira contemporânea.
Ao longo de sua trajetória, Elomar apresentou-se nos principais teatros do país e teve obras executadas por importantes orquestras e formações camerísticas. Sua relação com Belo Horizonte e com o Palácio das Artes possui caráter histórico. Foi nesse palco que realizou concertos memoráveis e apresentou, em estreia mundial, sua ópera “Auto da Catingueira”, em 2011, com sessões esgotadas e grande repercussão cultural.
Agora, retorna com um concerto ainda mais intimista e grandioso em sua concepção estética.
O espetáculo apresenta canções inéditas interpretadas pelo próprio compositor, entre elas “Naquela Favela” e “Samba do Jurema”, além da revisitação de raridades de sua discografia registradas nos compactos históricos de 1968, peças raramente executadas ao vivo. O repertório antecipa ainda composições do aguardado álbum Riachão do Gado Brabo, revelando um artista em plena efervescência criativa.
No palco, Elomar divide a cena com João Omar, maestro, violonista clássico e compositor, reconhecido por sua atuação refinada entre a música de concerto e a música brasileira de raiz. Filho e parceiro artístico de Elomar, João Omar assina a direção musical e a regência do espetáculo, além de executar o violão.
O concerto conta ainda com a participação especial das cantoras líricas Sylvia Klein e Letícia Bertelli, intérpretes de sólida formação vocal e destacada atuação no repertório operístico e camerístico. As artistas unem-se a Elomar na execução de peças de seu cancioneiro e de árias de suas óperas, ampliando a dimensão dramática e teatral do espetáculo.
A soprano Sylvia Klein iniciou sua formação no Coral Monlevade, sob regência do maestro Luciano Mendes Lima, aprofundando seus estudos com Amin Ferez, professor da UFMG, em Belo Horizonte. Posteriormente, especializou-se em Düsseldorf, na Alemanha, estudando com L. Stano (Polônia), Stan Unruh e Stephen Bronk (Estados Unidos).
Ao longo da carreira, Sylvia Klein destacou-se pelas interpretações de importantes obras do repertório erudito, entre elas “As Estações”, de Haydn; a “Nona Sinfonia” e a “Missa em Dó Maior”, de Beethoven; o “Réquiem” e a “Missa da Coroação”, de Mozart; a “Missa Solene”, de Gounod; além de “Carmina Burana”, de Carl Orff. Sua trajetória artística também é marcada pela profunda ligação com a obra de Elomar, interpretando árias de suas óperas e dividindo o palco com o compositor em diversos concertos pelo Brasil.
A cantora lírica Letícia Bertelli é doutoranda e mestra em Musicologia pela ECA-USP, sob orientação do professor Ivan Vilela. É pós-graduada em Canto – Música Antiga pela Staatliche Hochschule für Musik Trossingen, na Alemanha, e bacharel em Canto pela UEMG. Sua trajetória artística e acadêmica dedica-se ao estudo da música histórica, com ênfase na música barroca e nos repertórios de tradição oral.
Desde 2004, integra o Coral Lírico de Minas Gerais, consolidando importante atuação no cenário da música de concerto. Sua relação com a obra de Elomar possui relevância especial: Letícia integrou a equipe de transcrição da publicação “Elomar – Cancioneiro”, lançada em 2009, aprofundando sua pesquisa e convivência artística com o universo musical do compositor. Em “O Rei do Fogo e do Luar”, interpreta árias e peças do cancioneiro elomariano ao lado do compositor e demais convidados.
A proposta musical do concerto surpreende pela riqueza tímbrica. Além da formação camerística tradicional – com violão, violoncelo e flauta – o espetáculo incorpora novas sonoridades com violão de sete cordas, pandeiro, bandolim e cavaquinho, construindo uma sonoridade sofisticada que aproxima o universo erudito da música popular brasileira.
Mais do que um concerto, “O Rei do Fogo e do Luar” é uma experiência narrativa e sensorial. Uma obra marcada por dramaticidade, lirismo e força imagética. Um encontro entre música e poesia, entre o sagrado e o profano, entre o tempo e o eterno.
“… do Rei do Fogo e do luá do luá sizudo do Ri Gavião …”