Desde o surgimento da fotografia, no século XIX, a imagem tornou-se uma importante forma de informar o mundo. O daguerreótipo, ponto de partida dessa longa trajetória, inaugurou o desejo humano de capturar o instante, preservá-lo, compartilhá-lo, transformá-la em dado. A fotografia nasce, portanto, entre a memória e a notícia: registra o que aconteceu, transforma o acontecimento em documento e o devolve à sociedade como testemunho.
A exposição Aconteceu, virou manchete! parte dessa provocação: o que acontece quando a imagem deixa de ser apenas registro e passa a construir a própria história de uma instituição? Reunindo fotografias do acervo do Palácio das Artes, a mostra percorre diferentes momentos de sua trajetória e revela não apenas eventos artísticos, mas nas entrelinhas os afetos, as tensões e as transformações que moldaram a relação entre o Palácio e a cidade de Belo Horizonte.
As imagens expostas atravessam décadas de programação artística: shows, óperas, espetáculos de dança e teatro, sessões de cinema, exposições de artes visuais, bastidores, ensaios, artistas e público. Ao lado desses momentos de celebração, surgem também fotografias da reforma do edifício, do incêndio no Grande Teatro, cartazes da programação e da presença constante da população ocupando os espaços da instituição.
A mostra convida a pensar a fotografia como performance. O ato de fotografar é uma ação no mundo; envolve presença, escolha, aproximação, risco e interpretação, ao mesmo tempo o objeto fotografado é a própria performance artística: o gesto do bailarino, a voz da cantora, a cena teatral, o instante irrepetível do espetáculo, a fotografia reverbera, permitindo que o instante continue a existir na memória coletiva. Destacamos a importância dos profissionais de fotografia que já passaram e registraram desenhado à luz seus olhares e recortes desses espaços, em especial para o fotógrafo Paulo Lacerda que há mais de três décadas produz, preserva e divulga grande parte da memória desse acervo fotográfico de tamanha importância.
Nesse percurso, comungamos com Walter Firmo, um dos mais importantes fotógrafos brasileiros, cuja trajetória no fotojornalismo, especialmente no Jornal Manchete, demonstra como o olhar jornalístico pode ultrapassar a simples documentação dos fatos. Em suas imagens, a notícia convive com a poesia, a cor, a dignidade e a invenção visual. Firmo nos lembra que fotografar é também interpretar o mundo:
“Acredito que, utilizando sua própria linguagem, cada qual irá se expressar, revelando na verdade o seu íntimo, no retrato, na paisagem, no amparo surreal, na manifestação metalinguística, no prazer em se reinventar no transe de outras concepções, porque esse produto estético – a fotografia – é uma legítima forma conceitual de expressão pessoal, daquilo que acreditamos sentir individualmente e que escolhemos confidenciar através de imagens.”
Essa reflexão ilumina o conjunto apresentado nesta exposição, quando produzidas para fins institucionais, documentais ou jornalísticos, as fotografias do acervo do Palácio das Artes revelam sensibilidades, escolhas e modos de ver. Há nelas o registro da notícia,e há também o registro da arte.
Afirmamos a importância da memória institucional como patrimônio cultural da cidade. O acervo fotográfico do Palácio das Artes testemunha a continuidade de uma programação que forma artistas, amplia repertórios, democratiza o acesso à cultura e participa ativamente da construção da vida artística de Belo Horizonte e de Minas Gerais. Preservar essas imagens é preservar a experiência coletiva de gerações que encontraram e encontram no Palácio um espaço de criação, encontro e transformação.
Reconhecemos cada fotografia, simultaneamente, documento e emoção, informação e imaginação, passado e presença. O que aconteceu virou manchete; o que foi fotografado tornou-se memória; e aquilo que a memória conserva continua, ainda hoje, a produzir novos sentidos para o futuro.