Em 2026, o Palácio das Artes completa 55 anos. Grande parte dessa história está inscrita nas galerias e nas obras que compõem o acervo de artes visuais da Fundação Clóvis Salgado (FCS), instituição gestora do espaço. Agora, a instituição realiza uma mostra com mais de 150 trabalhos de seu inventário, construído ao longo das mais de cinco décadas e que inclui pinturas, desenhos, esculturas, fotografias, instalação, videoarte, performance e mais. A exposição “Acervo Palácio das Artes – seria uma rima, não seria uma solução” ocupa a Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard e as Galerias Arlinda Corrêa Lima, Genesco Murta e Mari’Stella Tristão até 6 de setembro de 2026. Com curadoria de Uiara Azevedo e design artístico e visual de Flávio Vignoli, a mostra traz um resgate da história das artes visuais no Palácio das Artes, e também um panorama da produção contemporânea brasileira. As galerias do Palácio das Artes têm entrada gratuita.
O título da exposição, “seria uma rima, não uma solução”, vem do poema “Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade, e acompanha uma curadoria que não busca oferecer respostas ou explicações, mas apresenta a arte como experiência e cada obra como uma “rima”, capaz de estabelecer relações com outros trabalhos, com o espaço expositivo e com o público. A mostra reúne nomes fundamentais das artes plásticas em Minas Gerais e no Brasil, incluindo artistas da primeira geração da Escola Guignard, como Maria Helena Andrés, Sara Ávila e Yara Tupynambá. O recorte curatorial contempla ainda produções de Amilcar de Castro, Genesco Murta e Pedro Moraleida, artistas que dão nome às galerias do Palácio das Artes, reafirmando a importância de suas contribuições para a história das artes visuais em Minas Gerais.
As artes visuais no Palácio das Artes começaram antes mesmo da inauguração oficial do espaço (em março de 1971), com a exposição “Do corpo à Terra” (abril de 1970), organizada por Frederico Morais e Mari’Stella Tristão, que abre as portas da instituição ao público, como destaca a curadora Uiara Azevedo, que foi Gerente de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado por 10 anos, entre 2015 e 2025.
Composto no início majoritariamente por pinturas e desenhos de artistas mineiros ou atuantes no estado, nos anos 1990 o acervo da Fundação Clóvis Salgado começa a adquirir um perfil mais contemporâneo, com artistas de diferentes regiões do país e variedade de suportes e linguagens. Construído por meio de doações dos artistas expositores ao longo das décadas, a partir de 2016 o inventário amplia a diversidade de gêneros, etnias, gerações, linguagens e suportes. “Acervo Palácio das Artes – seria uma rima, não seria uma solução” reúne figuras, elementos e signos associados à tradição, ao mesmo tempo em que a atualizam, aproximando produções de distintos períodos e mesclando novos e clássicos suportes, em um diálogo entre os múltiplos modos de se criar, enxergar e experienciar a arte.
Tairine Pena, atual gerente de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado, ressalta que ao todo são cerca de 350 obras no inventário, todas muito variadas. Há trabalhos de nomes como Beatriz Milhazes ao lado de obras que vieram da Feira Hippie de Belo Horizonte. No contexto da exposição também estão sendo desenvolvidas ações como produção de conteúdo e formação de público, com realização de encontros sobre curadoria, conservação e restauro e de atividades educativas. As obras também estão circulando simultaneamente em diferentes espaços, como o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, e irão em breve para Sabará.
Na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, a exposição apresenta um panorama do acervo, reunindo obras que vão desde suas primeiras doações até incorporações mais recentes. Integram este primeiro conjunto os trabalhos de Décio Noviello, Jorge dos Anjos, Marco Paulo Rolla, Sara Ávila, Fayga Ostrower, Laura Belém, Frans Krajcberg, Nydia Negromonte, Amilcar de Castro e outros.
Já na Galeria Mari’Stella Tristão, a exposição propõe um olhar abrangente sobre a paisagem mineira, um dos eixos estruturantes da coleção, não apenas como representação do território, mas também como elaboração poética e simbólica. Minas constitui uma presença recorrente no inventário desde o início – especialmente com pinturas e gravuras –, evidenciando diferentes modos de perceber e narrar a mineiridade ao longo do tempo, sempre em diálogo com outros suportes e obras mais novas. Atestando isso, o público poderá ver trabalhos de Carlos Bracher, Frederico Bracher Filho, Marina Nazareth, Genesco Murta e Lorenzato, além de outros artistas.
Nas Galerias Arlinda Corrêa Lima e Genesco Murta, a exposição destaca o Palácio das Artes como espaço de formação. Nesse contexto, sobressai o Prêmio Décio Noviello e o Programa ArteMinas. A presença do ArteMinas na exposição se torna particularmente evidente na edição “Sou aquilo que não foi ainda” (2019), título que homenageia a artista Teresinha Soares e que marcou uma mudança importante ao promover maior equidade na participação de mulheres na programação de artes visuais e, consequentemente, no próprio acervo. Nessas duas galerias, o recorte apresenta obras criadas por Julia Panadés, Carolina Botura, Marta Neves, Desali, Élcio Miazaki, Froiid e outros.
Uiara Azevedo afirma que a exposição não é somente a celebração de um legado, mas um novo capítulo da história do acervo. De Juliana Gontijo [artista belo-horizontina que transita entre pintura, desenho, fotografia, vídeo e escrita], por exemplo, a mostra conta com um site-specific nas Galerias Arlinda e Genesco retomando uma obra sua, chamada “Rompe Mato”, que foi exposta no ArteMinas 2019, em uma edição apenas de mulheres. O site-specific é um tipo de suporte que varia a cada lugar em que é montado, e, portanto, se renova, gerando outros trabalhos. Há também, na Grande Galeria, um poema da Teresinha Soares, “Notícia dada pela manhã” – o mesmo que estava aqui na mostra dedicada a ela em 2018.
A exposição “Acervo Palácio das Artes – seria uma rima, não seria uma solução” é realizada pelo Ministério da Cultura, Fundação Clóvis Salgado, MS Eventos e Luz Comunicação. As atividades da Fundação Clóvis Salgado têm a Cemig como mantenedora, Patrocínio Master do Instituto Cultural Vale e Grupo Fredizak, Patrocínio Prime do Instituto Unimed-BH e do Instituto AngloGold, Patrocínio Plus da Vivo e correalização da APPA – Cultura & Patrimônio. A ação é viabilizada por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura e da Lei Federal de Incentivo à Cultura.