Numa olhada superficial, Roger Corman pode parecer apenas um nome entre tantos associados ao fluxo lauto e incessante do cinema de horror. Contador de histórias de monstros, casas mal-assombradas, cientistas obcecados, corpos em transformação e ameaças sobrenaturais… Corman transitou por muitos dos cantos que tornaram o gênero célebre. Contudo, sua filmografia foi erguida numa zona de tensão entre as convenções e a invenção, entre aquilo que o público espera encontrar e aquilo que o filme é capaz de fazer com essa expectativa, entre o reconhecível e o perturbador. Assim, não seria exagero dizer que se trata de uma obra que transita entre o cinema popular e a experimentação.
Confira a programação completa
Corman conhecia bem os mecanismos do “espetáculo”, mas também explorava suas brechas. Em vez de tratar o gênero como uma forma fechada, encontrou nele um campo com alguma liberdade – uma liberdade para acolher o excesso, o humor, a violência, a estranheza e outros devaneios da imaginação, por mais excêntricos que possam ser. Eis um realizador que não temia contar histórias que provocam medos.
Nesse sentido, vale apontar que o terror, em Corman, raramente é só uma questão de susto, uma classificação de gênero. O terror é a matéria-prima, a matriz conceitual que liberta o corpo que se transforma, a percepção que se desorganiza, a casa que deixa de ser abrigo. E há algo de profundamente cinematográfico em sua maneira de construir essas desfigurações.
Corman parecia compreender que o cinema de gênero, justamente por trabalhar com formas reconhecíveis, podia deslocá-las, tensioná-las e, com isso, levar os espectador para lugares inesperados.
Em 2026, ano de seu centenário, o Cine Humberto Mauro se junta às celebrações dedicadas a Roger Corman com uma programação intensa. Na seleção, seis filmes realizados entre 1959 e 1964 atravessam cinco anos de uma filmografia marcada pela velocidade, pela invenção e pelo prazer de fazer cinema. No mês do Halloween, esta pequena retrospectiva é também uma oportunidade de retornar a um cineasta que fez do horror não apenas um gênero, mas um território de experimentação criativa.