Embora produzam excelentes filmes, as cinematografias ibero-americanas (de Portugal, Espanha e das nações historicamente colonizadas por esses países) ainda são pouco vistas dentro e fora de seus territórios quando comparadas aos filmes hollywoodianos. Quando se fala do cinema feito por mulheres nesses países, a desvalorização é ainda maior. De modo a ampliar o acesso e o debate em torno dessas obras, o Cine Humberto Mauro inaugura uma mostra permanente dedicada aos trabalhos de cineastas ibero-americanas. A ação consolida uma parceria entre a sala de cinema do Palácio das Artes, o Instituto Cervantes de Belo Horizonte e a plataforma virtual Sara y Rosa. A programação começa no dia 4 de fevereiro, às 19h, com a exibição do filme “Mulher da Rua” (1951), dirigido pela cineasta mexicana Matilde Landeta. A partir daí, e até dezembro, sessões bimestrais jogarão luz sobre obras de realizadoras da Argentina, Espanha, Brasil, Venezuela, Colômbia e Portugal. O Cineclube Ibero-americano tem entrada gratuita. Metade dos ingressos estará disponível, de forma on-line, a partir de meio-dia do dia das sessões, no site da Eventim; o restante dos ingressos será distribuído presencialmente na bilheteria do Cine Humberto Mauro, meia hora antes de cada exibição, mediante a apresentação de documento com foto.
Com curadoria da pesquisadora, professora, programadora, produtora e crítica de cinema Juliana Gusman, os seis encontros da primeira jornada do Cineclube Ibero-americano Permanente terão como mote o tema “As fictícias fronteiras do lar”. O objetivo é incentivar o público a elaborar, coletivamente, os fios soltos de uma outra história do cinema, buscando inventariar e debater as apropriações que antecederam ou catalisaram o despertar do “cinema de mulheres”. As espectadoras e espectadores serão introduzidos a um conjunto necessariamente heterogêneo de filmes e formas, todos fortemente atrelados a seus contextos geográficos e territoriais específicos.
A mostra “Cineclube Ibero-americano Permanente” é realizada pelo Ministério da Cultura, Governo de Minas Gerais, Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais e Fundação Clóvis Salgado. As atividades da Fundação Clóvis Salgado têm a Cemig como mantenedora, Patrocínio Master do Instituto Cultural Vale e Grupo Fredizak, Patrocínio Prime do Instituto Unimed-BH e da ArcelorMittal, Patrocínio da Vivo e correalização da APPA – Cultura & Patrimônio. O Palácio das Artes integra o Circuito Liberdade, que reúne mais de 60 equipamentos com as mais variadas formas de manifestação de arte e cultura em transversalidade com o turismo. A ação é viabilizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Vale-Cultura. Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro.
Olhares no feminino – O filme que abre a programação, “Mulher da Rua”, aborda as semelhanças inesperadas que emergem das vidas aparentemente opostas de duas irmãs. A diretora e roteirista mexicana Matilde Landeta (1913-1999), responsável pelo longa-metragem, participou ativamente da chamada “Era de Ouro do cinema mexicano”. Nos anos 1930, Matilde iniciou a trajetória no cinema trabalhando como continuísta em obras essenciais do diretor Fernando de Fuentes, como “El Prisionero 13” (1933) e “¡Vámonos con Pancho Villa!” (1936). Entre 1949 e 1951, realizou três longas, com destaque para “La negra Angustias” (1950), que aborda o período da Revolução Mexicana, e “Mulher da Rua”, que narra uma história de prostituição a partir da perspectiva de duas mulheres.
A curadora Juliana Gusman argumenta que a teoria feminista de cinema, ao enfocar terrenos mais explicitamente ocupados por realizadoras radicais, como os cinemas experimental e documentário, pode ter deixado de lado uma discussão sobre os usos, igualmente subversivos, que algumas delas fizeram de uma estrutura narrativa considerada dominante. “Apesar dos desafios materiais, financeiros e simbólicos – sobretudo nos países do Sul Global — algumas diretoras, da mexicana Adela Sequeyro (1901-1992) à brasileira Tereza Trautman (1951-), conseguiram ficcionalizar seus desejos e lutas. Nesse sentido, os filmes das realizadoras que escolhemos expandem os limites e os horizontes da experiência feminina”, aponta Juliana.
Vitor Miranda, Gerente de Cinema da Fundação Clóvis Salgado, ressalta que a mostra traduz um compromisso constante do Cine Humberto Mauro: ampliar o acesso a cinematografias pouco difundidas e estimular a formação crítica do público. “Ao reunir, em encontros regulares e gratuitos, filmes realizados por mulheres cineastas dos países ibero-americanos, a primeira jornada do projeto propõe um recorte preciso sobre as fronteiras entre o espaço doméstico e a vida pública, tema que atravessa obras de diferentes épocas e contextos. No Cine Humberto Mauro, essa programação se afirma como prática continuada de repertório, articulando exibição e reflexão e reforçando o papel da sala como espaço público de circulação, debate e preservação de uma história do cinema ainda em disputa”, destaca Vitor.