No dia 8 de outubro, às 19h30, o Cine Humberto Mauro recebe mais uma sessão do Cineclube Comum: Visões Táteis, mostra realizada em correalização com o Instituto Cervantes de Belo Horizonte. Nesta edição, a programação reúne o curta-metragem Jamal (Ibrahim Shaddad, Sudão, 1981) e o longa-metragem Leviatã (Leviathan, Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel, EUA, 2012), em uma sessão comentada pelo pesquisador Fábio de Carvalho.
Em diálogo com a proposta da mostra, os dois filmes encontram no corpo, no trabalho e na relação entre humanos, animais e máquinas uma possibilidade de deslocamento da experiência cinematográfica para além do olhar puramente óptico.
A aproximação entre os dois filmes passa, assim, por uma atenção aos gestos, às texturas, aos sons e aos movimentos que constituem o trabalho. Em ambos, a câmera se coloca em uma relação particular com corpos submetidos a forças que os ultrapassam: o animal que gira incessantemente em torno do moinho e a tripulação que enfrenta o movimento imprevisível do mar. São filmes que deslocam a posição convencional do espectador e fazem do ato de ver uma experiência também corporal, aproximando-se daquilo que Visões Táteis entende como uma imagem capaz de “tocar, não de dominar”.
Inspirada pelas pesquisas de José Val del Omar e pelas noções de visão háptica desenvolvidas por autores como Laura Marks, a mostra busca filmes nos quais olhar e corpo não estejam separados, convidando o espectador a uma relação mais instável, sensível e material com as imagens. Em Jamal e Leviatã, essa dimensão aparece de maneira particularmente intensa: o cinema parece abandonar a distância segura do observador para fazer sentir o peso dos corpos, a repetição dos gestos, a aspereza das superfícies, a vibração dos sons e a instabilidade dos espaços.
Após a exibição, haverá uma conversa com o público conduzida pelo pesquisador Fábio de Carvalho, dando continuidade à proposta do Cineclube Comum de fazer da sala de cinema um espaço de encontro, discussão e partilha de experiências a partir dos filmes.
NA PROGRAMAÇÃO:
CINECLUBE COMUM | VISÕES TÁTEIS
Jamal (Ibrahim Shaddad, Sudão, 1981, 15 min.) + Leviatã (Leviathan, Lucien Castaign-Taylor & Véréna Paravel, EUA, 2012, 1h27) | Sessão comentada pelo pesquisador Fábio de Carvalho
SINOPSES:
Jamal (Ibrahim Shaddad, Ibrahim Shaddad, Sudão, 1981) | Classificação: Livre | 14 min.
Dentro de um moinho de gergelim, a precariedade da luz revela um camelo de olhos tapados. Seus movimentos circulares ativam um pilão, e não sabemos se o que grita é a máquina ou a criatura. Este curta-metragem de Ibrahim Shaddad, membro do Sudanese Film Group (SFG), é uma montagem crítica da lógica vexante do trabalho que submete humanos e não-humanos. Mas além disso, é também um estudo experimental da sensorialidade do outro de espécie, uma indagação da subjetividade daqueles cujos sons não são reconhecidos como palavras, mas grunhidos – canto de revolta.
Leviatã (Leviathan, Lucien Castaing-Taylor e Verena Paravel, Reino Unido – EUA, 2012) I Classificação: 16 anos | 1h27
O monstro, tal qual o título sugere, não é só o mar vasto e tempestuoso que cobre tudo ao redor, mas é também o navio-fábrica de pesca onde tudo se passa. A câmera é capaz de se acoplar a qualquer ponto de vista imaginável: como parte da embarcação, da tripulação ou de suas presas. Esse não é um sinal de sua onipotência, mas sim a marca de um projeto cinematográfico que se compromete com a vertigem das escalas, da permanente oscilação da perspectiva como testamento de uma vulnerabilidade última do olhar.