Curso Básico de Curadoria 

O projeto da 16ª Mostra da Escola de Artes Visuais, CHAMA – Travessia das Memórias: arte, ancestralidade e movimento, propõe reflexões sobre o tema “Ancestralidade africana na arte brasileira, contextos e desdobramentos na contemporaneidade”. Durante o 2º semestre de 2025, os estudantes pesquisaram a temática, elaborando conceitos, ações educativas e artísticas para a construção dessa Mostra. Buscando ser um espaço para refletir sobre as maneiras pelas quais a ancestralidade afrodiaspórica se inscreve na arte contemporânea brasileira, revela uma multiplicidade de contextos, conceitos e formas de expressão. A Mostra também faz uma homenagem ao artista Jorge dos Anjos, que possui uma obra no acervo da Fundação Clóvis Salgado (FCS).

A seleção das obras se deu por meio de um chamamento interno elaborado pelos próprios estudantes do Curso Básico de Curadoria, que desenvolveram um conceito, fizeram a análise e seleção dos trabalhos, e escreveram o texto curatorial. As obras selecionadas foram divididas em dois núcleos, que propiciam observar um diálogo entre os trabalhos, por questões conceituais ou visuais. A seguir, veja o resultado desse trabalho, realizado com muito empenho e dedicação de todos e todas que se envolveram nesse processo.

Professor Giovane Diniz

TEXTO CURATORIAL

A 16ª Mostra da Escola de Artes Visuais do Cefart/FCS, CHAMA – Travessia das Memórias: arte, ancestralidade e movimento, convida o público a refletir sobre a presença da cultura afro-brasileira e seus desdobramentos na produção artística contemporânea no Brasil, conduzida por vozes que reconhecem no passado a força para criar o futuro. Uma travessia que entrelaça os eixos temporais em um mesmo fluxo, reafirmando a força vital da herança africana em nossa cultura. Não é apenas lembrança distante, mas a vida em cada gesto, em cada cor, em cada som que ecoa no presente, compondo um território onde a memória não é silêncio, mas atitude.

Travessia das Memórias configura-se como espaço de escuta e de visibilidade, revelando sua força na construção de identidades, imaginários e poéticas visuais. A ancestralidade aqui é entendida não apenas como herança, mas como movimento contínuo, vivo, que se atualiza nos gestos artísticos, nas formas simbólicas e nos modos de vida. Assim, a Mostra propõe-se como um espaço de encontro entre memória ancestral, arte e educação. Não apenas expondo obras, mas também cultivando experiências coletivas, reafirmando a expressão cultural como caminho de consciência histórica e transformação social.

Com diferentes narrativas, linguagens e técnicas, como pinturas (reproduções), fotografias, colagens, entre outras, a Mostra une as produções artísticas em dois núcleos temáticos: Representatividade e Resistência e Simbologia e Espiritualidade. A seleção partiu de uma chamada interna para que os estudantes da Escola enviassem obras. A exposição conta também com vídeos de projetos culturais, videoarte, produções do projeto educativo, um painel com intervenção artística e dois objetos elaborados a partir de duas ações performáticas realizadas na abertura da Mostra, convidando-nos a refletir sobre como a ancestralidade africana se inscreve na arte brasileira, em seus variados contextos, conceitos e formas de expressão.

Nesta edição, homenageamos o artista Jorge dos Anjos, cujo trabalho Festa, que integra o acervo da Fundação Clóvis Salgado, reforça a relevância de sua trajetória como referência para novas gerações. Sua produção, marcada pela presença do corpo, do espiritual e do ancestral, evidencia a potência de um fazer artístico que dialoga com a tradição e, ao mesmo tempo, se projeta para o futuro.

A Mostra instiga nossa reflexão sobre a relação entre a ancestralidade afrodiaspórica e a arte contemporânea brasileira. Propomos, assim, um percurso espiralar, no qual passado, presente e futuro se entrelaçam e se desdobram em distintas estéticas e elaborações poéticas.

Estudantes do Curso Básico de Curadoria

TEXTO – ARTISTA HOMENAGEADO (Acervo da FCS) 

Jorge dos Anjos nasceu em Ouro Preto (MG), em 1957. Sua produção artística abrange o desenho, a pintura, a escultura e a gravura. O artista iniciou sua trajetória na década de 1970, na Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP). Desde então, vem participando de importantes mostras nacionais e internacionais, incluindo a Bienal de Valência (2006), na Espanha, e tem obras no acervo permanente de instituições como o Museu Afro Brasil, em São Paulo. Ele também possui uma obra no acervo da FCS, intitulada Festa, de 1984. Em seus trabalhos, encontramos a vertente construtiva e elementos de religiosidade junto à cultura popular e à matriz afro-brasileira, explorando uma diversidade de materiais, como tela, papel, aço, pedra, madeira, feltro, plástico e borracha. Entre os trabalhos que sintetizam a sua poética está a obra Portal da Memória, localizada na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte (MG). Desde cedo, Jorge dos Anjos construiu uma pesquisa voltada tanto às questões formais (como a linha, a cor, a luz e o espaço) quanto aos saberes ancestrais.

Estudantes do Curso Básico de Curadoria

TEXTOS DOS NÚCLEOS TEMÁTICOS

Representatividade e Resistência

As raízes que permanecem, a força de uma voz que resiste ao tempo e o poder de se apresentar verdadeiramente como se é criam um processo robusto de permanência, sustentado por memória, justiça e pertencimento. Essa construção revela a herança fundamental que nos mantém próximos de quem nos antecedeu, reafirmando a continuidade como ato de resistência.

Buscando contemplar essas vertentes, o núcleo reúne obras como Raízes, de Sildelane V. Marques; A Curandeira, de Ainodesain; Flor de Luta, de Joyce Lima; Mestiços, de Felipe Palma; e Cores da Memória: O legado em mim, de Márisson Bretas. Essas produções traduzem a potência do legado presente nas transmissões de conhecimento e nas relações entre ancestralidade, espiritualidade e luta.

As obras, Carolina Maria de Jesus, de Fabíola Otoni; Amora e Flor de Hibisco, de Lana Stefany; Elza Soares, da Vila Vintém ao Milênio, de Silvério Coelho; Omo Oyá e neta da minha avó, de AJúliaSouza; e YAYÁ DUDU — Salve a força ancestral, de Karina Rodrigues, recordam a herança familiar e nomes que compõem a cultura afro-brasileira. Assim como Samba de Terreiro na Pequena África de BH, de Mariana Machado, e a obra Coroa, de Gabriel Rocha, convidam-nos a refletir sobre a responsabilidade de transmitir às novas gerações a consciência e a coragem necessárias para enfrentar os desafios do futuro.

Artistas: Felipe Palma, Márisson Bretas, Lana Stëfany, Mariana Machado, Fabiola Otoni, Karina Rodrigues, Ainodesain, AJúliaSouza, Sildelane V. Marques, Gabriel Rocha, Silvério Coelho e Joyce Lima. 

Simbologia e Espiritualidade 

Nesse encontro entre Brasil e África, pulsa uma herança viva, marcada no corpo, na cor, na fé, no ritmo, no gesto criador e na ancestralidade, que veio por travessias que carregam memórias de raízes africanas. Entre pinceladas, formas, texturas e símbolos, um diálogo entre passado e contemporaneidade, uma exaltação de pertencimento, que ecoa aos ancestrais e ressignifica a arte brasileira em sua profusão.

Aqui podemos encontrar obras como Guardião, de Lyon Luna; Realento, de Yurika Morais; Árvore da Vida, de Paulo Candido; Casta: Vida e Resistência de Angélica Sandes; Pé de passagem, de Demacê; Caminhos, de Dea Nunes; e A resistência está nos portões, de Ana Giordano. Os trabalhos apresentam elementos simbólicos extraídos da cultura na qual foram produzidos, possibilitando que cada signo demonstre um conjunto de interpretações. Já as obras O mar não se esquece, de Sarah Elen; Guia, de Sophia Santana; Patuá, carrego comigo o que trouxeram de lá, de Sabrina Fortunato; No avesso tenho acesso a mim mesmo, de Bea Pastorini Nogueira, apresentam profunda ligação entre fé, vida, equilíbrio e espiritualidade.

Artistas: Lyon Luna, Ana Giordano, Angélica Sandes, Demacê, Sophia Santana, Dea Nunes, Sabrina Fortunato, Paulo Candido, Sarah Elen, Bea Pastorini Nogueira e Yurika Morais.

Estudantes do Curso Básico de Curadoria: Alessandra Rabello, Alexandre Nery de Moraes, Ana Jaciara Pimentel Lima, Ana Júlia Souza Teodoro, Carolina Lima de Paoli Baião, Cristina Lúcia Lacerda, Débora Ferreira dos Santos, Domitila Vitória Santos Clemente, Emerson Jose da Silva, Fabiola Otoni, Felipe Cidade Ferreira de Mattos, Frederico Caixeta Figueiredo, Helena Marques Correia Silva, Icaro Gomes Silva, Iêda Angela Rodrigues, Isabela Mota Almeida, Jeozadaque Pereira Goncalves, Julia Gabriela Codogno, Julia Souza de Lima, Júlia Souza Figueira, Karina Rodrigues Santos da Silva, Letícia Martins de Freitas, Luciana Sudaria Profiro, Lyon Luna de Castro Goulart, Maíra dos Palmares S. Santana, Maria Aparecida de Almeida Costa, Marisson Silva Bretas, Miss, Natalia Pereira Araujo, Tales Ibañez Carvalho, Tassia Xavier de Araújo, Vagner Santos Lima e Virgínia Gabrielle Silva Moreira.

Orientação: Professor Giovane Diniz.

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