Curso Básico de Expografia

Projeto Expográfico da 16ª Mostra CHAMA – Travessia das Memórias: arte, ancestralidade e movimento.

A 16ª Mostra da Escola de Artes Visuais CHAMA – Travessia das Memórias: arte, ancestralidade e movimento, nasce da vontade de dar forma e materialidade ao conceito curatorial que orienta toda a exposição: a travessia como gesto simbólico, rito de passagem e experiência de reconexão com a ancestralidade. Mais do que uma proposta expositiva, a mostra se constrói como um território de memórias vivas, um percurso que busca unir passado, presente e futuro.

No Projeto Expográfico, concebido coletivamente pelos estudantes do Curso Básico de Expografia, cada setor da mostra é uma etapa dessa travessia, um espaço simbólico que convida o visitante a caminhar entre memórias, afetos e heranças, permitindo que a arte se revele como um território de reencontros e permanências.

Conceito e Materiais Cenográficos

A proposta expográfica adota como princípio o movimento contínuo entre memória e criação. Essa escolha se orienta pela premissa que nada evolui sem estabelecer uma conexão com o passado, com a ancestralidade. Esse projeto foi buscar nas obras do mineiro Jorge dos Anjos uma ponte para realizar essa experiência.

Renomado artista plástico contemporâneo brasileiro, Jorge dos Anjos expressa a ancestralidade afro-brasileira em seu trabalho. Fortemente influenciado por Amilcar de Castro e Rubem Valentim, o artista incorpora em sua obra elementos minerais e símbolos do candomblé como fonte de inspiração.

Sua produção revela uma ampla diversidade de materiais — ferro, aço oxidado, pedra-sabão, madeira, pólvora, feltro e outros elementos — explorados de forma singular para traduzir espiritualidade, memória e identidade. Em Belo Horizonte estão duas de suas obras icônicas: o Portal da Memória na Lagoa da Pampulha e o Monumento Zumbi Liberdade e Resistência, na Avenida Brasil. 

Em todo espaço da exposição, percorre uma plotagem em estrutura de raiz, que se ramifica a partir da obra de Jorge, conectando o chão, as paredes e os vidros da fachada e funcionando como metáfora visual: um organismo vivo em expansão, que cresce enraizando saberes ancestrais, além de conectar o espaço expositivo ao ambiente urbano. A logomarca da 16ª Mostra CHAMA, disposta no vidro, faz um convite aos transeuntes dos jardins do Palácio das Artes.

A paleta cromática utiliza parte das cores da identidade visual da 16ª CHAMA, evocando a natureza e a conexão. As cores escolhidas têm a finalidade de demarcar os espaços da travessia, criando uma unidade entre os elementos que fazem parte de cada etapa.

As materialidades escolhidas para a exposição são naturais e rústicas (mariwô, sisal e madeira), buscando dialogar com o conceito de organicidade e vínculo que reforça a conexão com a terra e com o fazer manual. A iluminação, por sua vez, é sutil e narrativa, cria zonas de intimidade e foco, conduzindo o olhar do espectador de modo sensível e estratégico. Já o mobiliário, leve e funcional, foi pensado para, além de se conectar com o conceito, favorecer a contemplação e a pausa, tempos necessários à experiência estética e simbólica que a Mostra propõe.

Setor 1 – Obra do acervo FCS (artista homenageado)

O percurso inicia-se sob a intensidade do vermelho, cor associada à pulsação da vida, à energia criadora e à ancestralidade do fogo. A parede bege, em contraponto, remete à terra e à serenidade, acolhendo o texto institucional da Escola, que apresenta o propósito formativo da CHAMA e a relevância de sua trajetória.

Ao centro, a obra A Festa (1984), de Jorge dos Anjos, ocupa posição de destaque, acompanhada por conteúdos textuais que abordam sua trajetória artística com a finalidade de situar o espectador sobre o artista homenageado desta edição. Integram-se de forma discreta à composição espacial a versão tátil da obra e o pedestal com o livro de registro.

Essa espacialidade sinaliza o portal de entrada para exposição, abrindo os caminhos para quem chega e operando como essa ancestralidade que guia o que está por vir. 

Setor 2 – Obra dos estudantes

O segundo setor é marcado pela cor amarela, cor da luz e da vitalidade, que aqui representa a força das novas gerações e a potência criadora dos estudantes. O espaço se divide em dois núcleos temáticos — Representatividade e Resistência e Simbologia e Espiritualidade — que se complementam como faces de uma mesma experiência de resistência, fé e reexistência.

Na primeira sala deste setor, o núcleo Representatividade e Resistência apresenta obras que abordam identidade, corpo e território. Em seguida, o núcleo Simbologia e Espiritualidade mergulha nas dimensões do sagrado e do simbólico, revelando a fé e a herança viva como fontes de criação e pertencimento. Optou-se por manter as dimensões originais das obras, garantindo que o impacto visual seja o mesmo pensado pelo artista no ato da concepção.

Entre as duas salas, a cortina de sisal, intencionalmente costurada com nós, representa a força dos vínculos e o entrelaçamento das experiências coletivas. Seguindo essa narrativa, nesta sala se localizam também o videoensaio (mediação) e o livreto Ateliê: Experimentações da Imagem, materiais desenvolvidos pelos estudantes do Curso Básico de Arte/Educação, conexão que reforça o caráter didático e reflexivo da Escola e da Mostra.

Setor 3 – Vídeos e Interação

A cor verde traz o respiro e o movimento, simbolizando renovação, crescimento e esperança, além de proporcionar melhor conforto visual para apreciação do conteúdo audiovisual disposto neste setor, em que as TVs exibem videografias.

Esse espaço também abriga a proposta de interação Fitas da Travessia, na qual o público é convidado a deixar sua marca na Mostra. As fitas de post-its coloridos representam diversidade, movimento e continuidade, elementos que refletem a ideia de que cada pessoa contribui com a construção da história, uma ligação direta com expressões de fé. Escrever e colar uma fita é um gesto simples, mas repleto de significado: um ato de permanência, um modo de transformar lembranças e desejos em parte viva da expografia.

Com o passar dos dias, o espaço se tornará um mural, revelando a força das palavras compartilhadas e a potência da arte como lugar de encontro e transformação. Este setor sintetiza o dinamismo da exposição: o movimento como continuidade da memória, um caminho em constante mutação.

Setor 4 – Acolhimento e Intervenções

O último setor, de cor marrom, encerra o percurso com a densidade da terra e o simbolismo das origens. É o espaço da memória sedimentada, da devolutiva simbólica ao público e do reencontro com o sentido da travessia. 

Posicionado estrategicamente ao final, o texto curatorial convida o visitante à consagração de todo percurso, sendo o momento de reflexão do que foi experienciado até ali e possibilitando um contrafluxo que subverte a lógica do que vem sendo feito na expografia convencional. Instiga o espectador a passear por toda a Mostra, para então compreendê-la em sua totalidade. O painel de intervenção, a máscara e o objeto cênico, elementos criados durante a abertura da Mostra, propõem a síntese entre matéria, gesto criador e ancestralidade, transformando o ambiente em território ritualístico. 

As travessias

Nos pilares de transição de cada setor da exposição, a instalação de Mariwô — feita com folhas de dendezeiro — marca a passagem simbólica entre tempos e dimensões. Em iorubá, mariwô é símbolo de proteção e transição, utilizado nos terreiros como elemento sagrado. Aqui, transforma-se em portal de travessia, reafirmando a espiritualidade e a ancestralidade que sustentam a mostra.

O projeto expográfico da 16ª Mostra CHAMA se constrói como um percurso sensorial e simbólico, no qual cada cor, textura e disposição espacial traduz o espírito da conexão. Mais do que ambientar, a expografia conta a história da arte que nasce do encontro entre o individual e o coletivo, entre o gesto ancestral e o movimento contemporâneo. Assim, a Mostra se torna um espaço de memória e futuro, onde o olhar se faz gesto, e a arte, travessia.

Esse seria o nosso convite à contemplação e ao estado pleno de presença.

Neste vídeo, confira um tour da modelagem do projeto expográfico da 16ª CHAMA.

FICHA TÉCNICA 

Projeto Expográfico 

Desenvolvido pelos estudantes e orientado pelos professores do Curso Básico de Expografia

Professores Alexandre Ventura, Bruna Gonçalves e Nathália E. Bruno de Campos 

Estudantes Alessandra Fonseca Braga da Cunha, Ana Luísa Giordano, Anelize Aguiar Cardoso, Daniel Cavalcante da Silva, Érica Alessandra Fernandes, Fabiola Hasegawa Teixeira, Fabrícia Almeida Batista, Gabriela Maia Carneiro Pinto, Lana Stéfany Araújo Pimenta, Larissa de Souza Figueiredo, Maria Klara Álvares de Melo, Marina Ramos Isaias Vale, Nataly Olivier Santana, Polyanne Acerbi de Oliveira, Renata Mota Almeida, Sabrina Fortunato Martins, Sarah Elen Rodrigues Gonçalves e Silvério Jose Coelho

Texto Érica Alessandra Fernandes, Gabriela Maia Carneiro Pinto, Maria Klara Álvares de Melo, Nataly Olivier Santana, Polyanne Acerbi de Oliveira, Sabrina Fortunato Martins e Silvério Jose Coelho

Modelagem 3D Anelize Aguiar Cardoso e Larissa de Souza Figueiredo

Plantas de Apresentação Renata Mota Almeida

Manual de Montagem Daniel Cavalcante da Silva, Helena Marques Correia Silva e Renata Mota Almeida

Memorial Descritivo Ana Luísa Giordano, Fabiola Hasegawa Teixeira, Fabrícia Almeida Batista, Lana Stéfany Araújo Pimenta, Marina Ramos Isaias Vale e Sarah Elen Rodrigues Gonçalves

Animação de Cena Larissa de Souza Figueiredo

Edição de vídeo Alessandra Fonseca Braga da Cunha

Trilha Sonora Amanda Prates (Lágrimas de Exu)

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