No dia 07 de Abril, às 19h30, o Cine Humberto Mauro recebe mais uma sessão do Cineclube Comum. Na programação da mostra Visões Táteis, será exibido “O Movimento das Coisas” (1985), filme de Manuela Serra e obra singular do cinema português que observa o cotidiano de uma pequena aldeia rural, entre gestos de trabalho, rituais comunitários e a passagem do tempo. Com uma abordagem sensorial e contemplativa, o filme constrói uma experiência marcada pela atenção às texturas dos corpos, dos objetos e das paisagens, aproximando-se da proposta da mostra de explorar o cinema como experiência física e tátil.
-> A sessão, com classificação de 12 anos e duração de 1h25, contará com comentário da pesquisadora Marina Lamas, seguido de conversa com o público.
Texto curatorial:
Cineclube Comum: Visões táteis
Numa correalização entre a Fundação Clóvis Salgado e o Instituto Cervantes de Belo Horizonte, o Cineclube Comum apresenta a mostra Visões Táteis, que ocupará o Cine Humberto Mauro em sessões mensais ao longo de todo o ano de 2026. O cineclube é um projeto de exibição e discussão cinematográfica em atividade em Belo Horizonte desde 2012. A iniciativa aposta no potencial das salas de cinema para serem espaços de troca, partilha de ideias e efervescência cultural e política. Ao longo de sua história, o projeto já realizou mais de dez mostras, em diferentes espaços da cidade, como o Cine Santa Tereza, o Centro Cultural Unimed-BH Minas, o SESC Palladium e os centros culturais Venda Nova, Usina de Cultura e Vila Fátima. Algumas mostras de destaque foram Sabotadores da Indústria (SESC Palladium, 2015), Brasil 68 (Cine Santa Tereza, 2018) e Defesa do Atrito (Cinema do Minas, 2024). O cineclube também publica a coleção de livros Cadernos do Cineclube Comum, que atualmente conta com cinco volumes de ensaios dedicados aos filmes exibidos nas diferentes mostras.
Em 2026, partindo da filmografia do cineasta-inventor espanhol José Val del Omar, a mostra Visões Táteis apresentará ao público do Cine Humberto Mauro um conjunto variado de filmes que valorizam o aspecto físico da experiência do cinema, bem como sua capacidade de alterar nossa percepção sensível e abri-la para sensações desconhecidas. Em um tempo em que a dispersão, o excesso de informações e a saturação de imagens nos empurra a uma desconexão em relação a tudo o que é concreto e tangível, apostamos na capacidade do cinema de fazer valer o sentido do tato, esse que, no dizer do ensaísta argentino Pablo Maurette, foi por muito tempo considerado um “sentido esquecido”, diante do “oculocentrismo” da cultura ocidental, em sua primazia da visão ótica. Interessam, assim, os filmes que incorporam a tactilidade, a visão háptica, ou “tudo aquilo que se expressa por meio de pulsações, rangidos, torções, expansões, acelerações, resfriamento, equilíbrio e desequilíbrio”. Como escreve Maurette, “tudo que nos comove, nos excita, nos agita, tudo que nos afeta com maior ou menor intensidade é experimentado como uma forma de tato”. É em busca dessas intensidades que se move a mostra Visões Táteis.
Os filmes de Val del Omar inauguram a mostra, no dia 3 de março às 19h30. A sessão de abertura traz três curtas-metragens que compõem seu Triptico Elemental de España, formado por Aguaespejo Granadino (La Gran Siguiriya) (1953-1955, 23′), Fuego en Castilla (Tactilvisión del Páramo del Espanto) (1958-1960, 17’) e Acariño Galaico (De barro) (1961-1962, 24’), além do pioneiro Vibración de Granada (1934-1935, 22’). Nascido em Granada em 1904, além de cineasta, José Val del Omar, foi fotógrafo, escritor, educador, e se destacou também como inventor de máquinas e aparatos técnicos, que contribuíram com sua busca incessante de uma arte capaz de mobilizar múltiplos sentidos simultaneamente. Suas explorações do desbordamento da tela, do som diafônico e dos aspectos táteis da experiência do cinema culminaram, no final de sua vida, em uma proposição de arte total, que ele chamou de PLAT (picto-lumínico-áudio-tátil). Seus filmes possuem uma qualidade eminentemente tátil, produzida através de procedimentos técnicos e formais, como suas coreografias de luz, que produzem uma outra experiência de exibição na sala escura. Em textos como “Teoría de la visión táctil”, de 1955, Val del Omar defende que “a visão tátil é uma linguagem pulsatória elevadora da sensação palpitante de tudo o que vive e vibra”. A sessão será apresentada e comentada pelos integrantes do Cineclube Comum, Fábio de Carvalho, Helena Elias e Victor Guimarães.
Inspirada pelos filmes e textos de Val del Omar, ao longo do ano a mostra avançará para uma programação de filmes que, de alguma maneira, continuam suas inquietações em torno das qualidades táteis da visão e da escuta. Filmes em que o olhar não se restringe a um expediente óptico, mas incorpora algo do movimento do corpo. Que convidam mais a uma atenção à textura das superfícies do que à enunciação. Filmes que de alguma forma presentificam as sensações vibrantes e que se esquivam da legibilidade. Filmes que convidam a uma relação corpórea entre espectadores, imagens e sons. O conceito valdelomariano de visão tátil inspira uma curadoria diversa, que incluirá filmes experimentais, de gênero, provindos do cinema marginal, do cinema de fluxo, e de distintos territórios geográficos. Desde filmes etnográficos que recuperam a materialidade do gesto até filmes de horror que propõem uma relação visceral com as imagens e os sons. Desde obras que exploram a animalidade, escapando dos limites do entendimento humano, até filmes que dialogam com o melodrama e o musical, recuperando o engajamento emocional como acontecimento físico.
A mostra busca um olhar capaz de “tocar, não de dominar”, como propõe a filósofa e crítica de arte Laura Marks. Em sua definição, “as imagens hápticas não convidam tanto à identificação com uma figura, mas sim incentivam uma relação corporal entre o espectador e a imagem”. O olhar háptico “é um olhar instável, plástico, mais inclinado ao movimento do que ao foco”. Diante da captura da atenção pela multiplicação de telas, a mostra aposta em filmes que recuperam a sala de cinema como espaço privilegiado de imersão. Em diálogo com Val del Omar, um cinema que se move por frequências subterrâneas, que reage ao excesso de palavras e se volta para o instinto, a carne e o tato.
A mostra Visões Táteis será realizada no Cine Humberto Mauro ao longo do ano de 2026, com sessões mensais programadas para as primeiras terças-feiras de cada mês, com eventuais exceções, sempre iniciando às 19h30. Após cada exibição, haverá um debate com a participação de integrantes do cineclube e de pesquisadores de cinema da cidade, que farão um comentário sobre os filmes exibidos e incitarão uma conversa com o público. A mostra conta com o financiamento do Instituto Cervantes de Belo Horizonte e da Fundação Clóvis Salgado.
Sinopse do Filme:
O Movimento das Coisas (Manuela Serra, Portugal, 1985) | 12 anos | 1h25
Histórias cotidianas de silêncio. O retrato de uma aldeia remota, Lanheses, que mostra o movimento simples das pessoas e suas vidas laborais, mais como uma experiência cinematográfica do que como um manifesto político explícito.