O Cine Humberto Mauro segue sua parceria com a Escola Brasileira de Psicanálise e apresenta mais uma sessão do projeto Cinema e Psicanálise. No dia 16 de outubro, sexta-feira, às 19h, o projeto exibe Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, Ken Loach, Reino Unido, França e Bélgica, 2016), filme que acompanha a trajetória de um homem comum diante das dificuldades impostas por um sistema que, pouco a pouco, parece deixar de reconhecê-lo como sujeito.
Em seu cinema, Ken Loach volta frequentemente o olhar para personagens atravessados por circunstâncias sociais que ultrapassam o poder de suas escolhas individuais. São histórias de pessoas que trabalham, amam, adoecem, criam filhos, perdem seus empregos, procuram ajuda e que, apesar de tudo, preservam afetos e dignidade. Há nesses filmes uma atenção particular às pequenas possibilidades de resistência que surgem mesmo quando a vida parece estreitar seus caminhos.
Em Eu, Daniel Blake, essa dimensão ganha uma força especialmente delicada. Depois de sofrer um problema cardíaco, Daniel Blake, um carpinteiro de 59 anos, precisa recorrer ao sistema de assistência social para obter o benefício de que necessita. É nesse percurso kafkiano, marcado por formulários, atendimentos, exigências e esperas, que conhece Katie, uma jovem mãe também submetida às dificuldades de um sistema que deveria ampará-la.
Há humor, afeto, solidariedade e até mesmo alegria em meio às dificuldades, como se a vida insistisse em aparecer justamente onde as circunstâncias parecem tentar apagá-la. É também nessa dimensão profundamente humana que o encontro com a psicanálise pode abrir novas possibilidades de leitura. Mais do que procurar no filme uma interpretação definitiva, a sessão comentada convida a acompanhar os personagens em suas contradições, desejos, perdas e formas de vínculo.
Entre a crítica social e a delicadeza dos encontros, Eu, Daniel Blake encontra-se marcado pela força da humanidade: ao narrar a história de Daniel e Katie, Ken Loach nos lembra que discutir as condições da vida é também discutir os modos pelos quais uma sociedade reconhece, acolhe ou abandona aqueles que a constituem.
Após a exibição, haverá conversa com Ernesto Anzalone, psicanalista e membro da Associação Brasileira de Psicanálise.