Em dado momento da peça Os Arqueólogos, um pai explica ao filho que “toda vez que você tira uma fotografia, você para um pedacinho do tempo”. O teatro é justamente esse tempo que não se congela: a arte dos momentos efêmeros vividos e compartilhados entre o palco e a plateia. Pensando na volatilidade do tempo e na beleza dos momentos sutis de afeto e intimidade, a Cia Dois em Um mergulhou no texto de Vinícius Calderoni para a criação de seu terceiro espetáculo, que estreou no dia 30 de julho de 2025, no Galpão 3 da Funarte-MG, em Belo Horizonte. Os Arqueólogos é um espetáculo que parte do encontro entre memória, tempo e afeto, construindo uma cena sensível e provocadora a partir da escuta, do corpo e da palavra. O trabalho acaba de ser indicado ao 36º Prêmio Shell de Teatro, na categoria Destaque Nacional, uma das premiações mais relevantes do cenário teatral brasileiro. Fundada em 2020 pelos artistas da cena Dê Jota Torres e Lucas Prado, a Dois em Um vem se notabilizando por uma pesquisa continuada, pautada no trabalho do ator e na dramaturgia contemporânea. Essas foram as bases de seus dois primeiros espetáculos: Teatro Decomposto (com texto do romeno Matéi Vișniec, estreado em 2023) e o espetáculo voltado para as juventudes A Língua do Fogo (com texto da mineira Malu Grossi Maia, estreado em 2024). Com Os Arqueólogos, o coletivo realiza a primeira montagem profissional de um texto de Vinícius Calderoni em Minas Gerais. Conhecido por seu trabalho como músico — em carreira solo e integrando a banda 5 a Seco —, além de ator, diretor e dramaturgo, Calderoni assina textos premiados como o musical Elza (2018), dirigido por Duda Maia; Sísifo (2020), solo de Gregório Duvivier dirigido pelo próprio autor; Museu Nacional, Todas as Vozes do Fogo (2022), espetáculo da Cia. Barca dos Corações Partidos; e o recente Nossa História com Chico Buarque (2025), dirigido por Rafael Gomes. Contudo, o dramaturgo — celebrado por sua capacidade de conciliar uma escrita sofisticada com ampla comunicação com o público — ainda não havia sido abordado por artistas da cena mineira. Ao retomar o texto de Os Arqueólogos, escrito em 2015 e que rendeu a Calderoni o Prêmio APCA de Melhor Dramaturgia, a Cia Dois em Um realiza um movimento incomum dentro do teatro mineiro. “Nós vínhamos observando que os artistas da nossa geração, em geral, optavam por dramaturgias próprias ou por textos clássicos. Mas por que não trazer novamente à cena a obra de um autor vivo, contemporâneo e extraordinário, escrita há menos de uma década?”, explica Dê Jota. De fato, Os Arqueólogos já teve uma primeira montagem, realizada em São Paulo, com direção de Rafael Gomes e com o próprio Vinícius Calderoni no elenco. Ao dar uma nova vida ao texto, passado relativamente pouco tempo desde sua estreia — mas um período marcado por turbulências políticas, econômicas e sociais, além de uma pandemia que suspendeu nosso tempo e nosso convívio —, a Dois em Um propõe uma verdadeira arqueologia de um tempo e de uma produção que parecem cada vez mais voláteis. “É, de certa forma, uma celebração do nosso próprio fazer. Querer encenar esse texto neste momento, com estes outros atores, é celebrar o texto do Vinícius, celebrar a memória e celebrar as muitas vidas que o teatro nos permite viver e reviver”, comenta Lucas Prado, que divide a cena da montagem com Dê Jota e com o músico João Pedro Vasconcelos, diretor musical do espetáculo. Somando-se à equipe criativa, Os Arqueólogos conta com direção de Rogério Lopes, artista e pesquisador. O diretor já marcou a trajetória da Cia Dois em Um quando, em 2017, assinou a direção dos espetáculos de formatura de Prado e Dê Jota, respectivamente A Cerimônia (de Fernando Arrabal) e Os Negros (de Jean Genet). Se, em 2018, à época da formatura no Teatro Universitário da UFMG (TU), Rogério era o elo de conexão entre duas montagens distintas, agora o diretor se encontra em um lugar de pleno compartilhamento da sala de ensaio e do processo de criação do espetáculo. A cenografia e os figurinos são assinados por Tereza Bruzzi, Paulo Mendes e Matheus Lukashevich.
SINOPSE
De um futuro distante, três arqueólogos analisam possíveis vestígios do nosso tempo, tentando decifrar os hábitos de uma civilização que lhes parece absurda. Quase como narradores esportivos, conduzem o público por uma transmissão ao vivo que busca recriar como teria sido viver o cotidiano daquela época. Com lirismo e bom humor, Os Arqueólogos traz a memória em camadas que se articulam entre aquilo que permanece e as nuances que inevitavelmente se perderão no tempo.