Em março, mês de celebração da luta das mulheres, o Cine Humberto Mauro volta o olhar para filmes que exploram suas rebeldias no campo das artes e do entretenimento com a mostra “As Faces da Showgirl: Desejo e Ruínas”. A programação dá continuidade às reflexões provocadas pela mostra anterior — focada em Billy Wilder e Marilyn Monroe e na consolidação de um star system clássico —, mas, dessa vez, propondo um novo movimento. Com uma filmografia que atravessa mais de um século de imagens e discursos sobre espetáculo, corpo, desejo e poder, a mostra pretende fragmentar o ícone singular em uma constelação de figuras, gestos e narrativas que tensionam, renovam ou mesmo implodem essa tradição. Com curadoria da professora e pesquisadora Juliana Gusman, a programação reúne 42 filmes, produzidos entre 1918 e 2025, em 14 países diferentes, entre curtas e longas-metragens, ficções, documentários e obras experimentais. As sessões acontecem entre os dias 4 e 31 de março, em horários variados. A mostra tem entrada gratuita e 50% dos ingressos estarão disponíveis, de forma on-line, a partir de meio-dia do dia das sessões, no site da Sympla; o restante dos ingressos será distribuído presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes, no hall de entrada, meia hora antes de cada exibição, mediante a apresentação de documento com foto.
Confira a programação completa
Confira as sinopses dos filmes
A programação vai dos palcos sombrios e delirantes de “Cabaret” (dirigido por Bob Fosse e lançado em 1972) às apresentações burlescas de “A Vida é Uma Dança” (Dorothy Arzner, 1940); da “rumbera” de Ninón Sevilla, estrela mexicana de “Vítimas do Pecado” (Emílio Fernández, 1951), à protagonista a lá Wilder de “A Grande Vedete” (Watson Macedo, 1958), vivida pela incontornável Dercy Gonçalves; da fabulação cromática de “Os sapatinhos vermelhos” (Michael Powell e Emeric Pressburger, 1948) à Nova York soturna de “Klute” (Alan J. Pakula, 1971). Filmes nacionais como “Divinas Divas” (Leandra Leal, 2016), “Atravessa minha Carne” (Marcela Borela, 2025), “Babilônia” (Duda Gambogi, 2024), “Rainha” (Sabrina Fidalgo, 2016) e o raro “Maria Gladys, uma atriz brasileira” (Norma Bengell, 1979), instigam outros deslocamentos, incorporando perspectivas documentais e autobiográficas que complexificam a relação entre performance e identidade. Além disso, a mostra apresenta quatro sessões comentadas, ampliando reflexões sobre o polêmico “Showgirls” (Paul Verhoeven, 1995); o melancólico “A última showgirl” (Gia Coppola, 2024) e o clássico feminista “Espelhos Partidos” (Marleen Gorris, 1984), em exibição inédita no Brasil — o quarto filme, que integra a “Sessão Secreta”, será revelado apenas no momento da exibição.
Segundo a curadora, Juliana Gusman, houve uma preocupação em apresentar, no recorte da mostra, um número expressivo de filmes dirigidos por mulheres. “Busquei perseguir fissuras do arquétipo da showgirl instituídas por mulheres do ponto de vista da direção ou de roteiro, para além da criação, da elaboração e da subversão autoral que se dá no trabalho da atriz. Também priorizei obras em que a subjetividade e a agência femininas – em suas pluralidades de raça, sexualidade, contextos sociais ou regionais e, claro, em seus diferentes ofícios no mundo das artes e do entretenimento – estivessem em primeiro plano”. Para Juliana, a variedade geográfica foi outro fator importante na seleção: “Não queria apresentar apenas filmes produzidos em um certo momento da Era de Ouro de Hollywood, quando o imaginário clássico da showgirl se consolida. Queria compreender como ela foi sendo forjada em outros espaços e tempos, contaminada por outros subtextos culturais – quem é a showgirl brasileira, mexicana, chilena, cubana? Além disso, era fundamental, para observarmos o avesso dessa figura, extrapolarmos os territórios da ficção, recorrendo a narrativas documentais e experimentais. E, claro, programar curtas-metragens, uma forma cinematográfica que permite uma ousadia criativa interessante, mas que é pouco valorizada, é sempre uma prioridade política no meu trabalho”.
A mostra “As Faces da Showgirl: Desejo e Ruínas” é realizada pelo Ministério da Cultura, Governo de Minas Gerais, Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais e Fundação Clóvis Salgado. As atividades da Fundação Clóvis Salgado têm a Cemig como mantenedora, Patrocínio Master do Instituto Cultural Vale e Grupo Fredizak, Patrocínio Prime do Instituto Unimed-BH, Patrocínio Plus da Vivo, Patrocínio da ArcelorMittal e correalização da APPA – Cultura & Patrimônio. O Palácio das Artes integra o Circuito Liberdade, que reúne mais de 60 equipamentos com as mais variadas formas de manifestação de arte e cultura em transversalidade com o turismo. A ação é viabilizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Vale-Cultura. Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro.
Jogando com (e contra) o ideal de feminilidade — Em suas concepções mais comuns, as “showgirls” são as artistas de cena burlesca, envolvidas nos chamados “espetáculos de variedades” que surgem, na Europa, no início do século XX, articulando teatro, canto e dança com ironia, sátira e sensualidade. Os vaudevilles, como eram conhecidos, são importados pelos Estados Unidos e se tornam um tema central nas produções da Era de Ouro de Hollywood, entre os anos 1930 e 1950. Os bastidores dessa forma de entretenimento foram, então, explorados de forma ostensiva. Se, no contexto da mostra, essa tradição é retomada em produções que, de alguma maneira, permitem leituras críticas às engrenagens do espetáculo, a proposta é, também, expandi-la. “Estamos lidando com uma noção mais ampliada da showgirl, entendida como as atrizes, cantoras, bailarinas, trabalhadoras sexuais, drag queens, rainhas de escola de samba e todas as profissionais que de alguma forma estão mobilizando e tensionando ideais de feminilidade”, ressalta Juliana Gusman.
A curadora espera que os filmes despertem no público uma sensibilidade política: “A mostra foi pensada para acontecer justamente no mês de março, quando as atenções se voltam para as lutas feministas por uma transformação social mais ampla. Eu espero que essas obras proporcionem encontros, experiências e instantes que nos aticem a sair de uma imobilidade resignada. Acredito muito na força, sensorial, de imagens que atravessam a tela e nos convocam a agir, de forma ética e contundente, no mundo em que vivemos. Também espero que o público se depare e se encante com a força de mulheres que, numa amplitude de autorias que vai da direção à atuação, conseguem falar, com autonomia, de si”.
CINE HUMBERTO MAURO – Um dos mais tradicionais cinemas de Belo Horizonte, foi inaugurado em 1978. Seu nome homenageia um dos pioneiros do cinema brasileiro, o mineiro Humberto Mauro (1897-1983), grande realizador cinematográfico. Com 129 lugares, possui equipamentos de som Dolby Digital e para exibição de filmes em 3D e 4K. Nestes mais de 45 anos de existência, a Fundação Clóvis Salgado tem investido na consolidação do espaço como um local de formação de novos públicos a partir de programação diversificada, bem como através da criação de mecanismos de estímulo à produção audiovisual, com a realização do tradicional FestCurtasBH – Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, e o Prêmio Estímulo ao Curta-Metragem de Baixo Orçamento. O Cine Humberto Mauro também é um importante difusor do conhecimento ao promover cursos, seminários, debates e palestras. Sessões permanentes e comentadas também têm espaço cativo a partir das mostras História Permanente do Cinema, Cinema e Psicanálise, Curta no Almoço, entre outros. Todas as atividades do Cine Humberto Mauro são gratuitas.FUNDAÇÃO CLÓVIS SALGADO – Com a missão de fomentar a criação, a formação, a produção e a difusão da arte e da cultura em Minas Gerais, a Fundação Clóvis Salgado (FCS) é vinculada à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult). Artes visuais, cinema, dança, música, ópera e teatro integram a ampla programação desenvolvida nos espaços sob sua gestão, como o Palácio das Artes, a CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais e a Serraria Souza Pinto. A Fundação também é responsável pela gestão dos corpos artísticos — Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico de Minas Gerais e Cia de Dança Palácio das Artes — além do Cine Humberto Mauro, das Galerias de Arte e do Cefart. Em 2026, ao celebrar os 55 anos do Palácio das Artes, a FCS amplia suas ações para todas as artes e todos os públicos, reafirmando seu compromisso com a democratização cultural. Palácio das Artes – 55 anos: ontem, hoje, sempre. A arte é o espaço do encontro.