R) Rosângela Rennó

Palavras chave: fotografia expandida, poesia.

Bora falar de arte?

O Qualquer Quoletivo foi assunto da nossa conversa passada. Construir uma cartografia crítica, propor vivências afetivas e montar um dossiê são formas de se repensar a Amazônia pelos caminhos da arte. Nesta semana, vamos saber um pouquinho sobre como a fotografia foi reexaminada pelas pesquisas de Rosângela Rennó. 

Rosângela Rennó

Natural de Belo Horizonte, a arquiteta e artista plástica Rosângela Rennó trabalha atualmente no Rio de Janeiro com pesquisas voltadas para o campo da fotografia, que se desdobram em vídeos e instalações. Apropriar-se de fotografias de acervos e expandir esse universo compõem seu fazer poético.

Na década de 80, Rennó participou do primeiro e do nono Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado e de outras exposições coletivas no Palácio das Artes: “Bonecas & Bonecos” (1986), “Dez Fotógrafas” (1987) e “Operações Fundamentais – A Soma das Diferenças” (1989).

Seu olhar para a fotografia se iniciou com o acervo da família. Depois foi para “caixas” com fotogramas e fotografias anônimas, dispensadas em lixeiras ou esquecidas em estúdios fotográficos ou ainda vendidas em mercados de pulgas. Em seguida, mergulhou em arquivos institucionais.

Esse percurso, além de contribuir para inserir a fotografia dentro do campo da arte contemporânea, uma vez que até os anos 80 a primazia eram pintura e escultura, permitiu que se pensasse a fotografia não apenas pelo âmbito do fazer, mas também pelo que já estava aí, precisando ser revisto. Hoje, com o advento das tecnologias, essas questões se tornam ainda mais urgentes, fazendo-se importante refletir sobre a produção de tantas imagens.

Assim como alguns outros objetos, a fotografia guarda dentro de si uma multiplicidade de qualidades: de testemunhar o tempo, de ser uma fonte simbólica, de instaurar uma força estética e ficcional sobre o cotidiano. O trabalho de colecionar, apropriar-se e ressignificar essas imagens e objetos descartados busca investigar nossa relação com a produção e com o consumo e reexamina a história da fotografia, a memória coletiva e a natureza política das imagens.

Fotomontagem: Mara Tavares

Série Matéria de Poesia (2008-2013)

Na série Matéria da Poesia, a artista compõe versos e imagens. Os versos foram retirados do poema Matéria de Poesia (1974), de Manoel de Barros, e as imagens são sobreposições de slides dispensados, que foram ampliados em grande formato e agrupados por uma relação temática ou por tonalidades. Os slides foram legendados com os versos do poema. Não há uma relação direta, há, porém, um universo a ser imaginado, ficcionado e aberto ao espectador para construir a sua própria narrativa. 

Assistir a projeções em slides na companhia de amigos era um costume que, agora, está esquecido. Essa lembrança motivou a artista a optar por esse grupo de imagens para tirá-las do limbo e ressignificá-las. Já a escolha do poema “Matéria de Poesia” aconteceu devido à seriedade com que Manoel trata as coisas jogadas fora, as insignificâncias e as miudezas; aquilo que é inútil, que não é vendido e cujo valor se perdeu: isso serve à poesia. Esse universo do dispensado, do esquecido e do desvalorizado, que se encontra tanto em imagens e objetos quanto no próprio homem, são matérias de reencantamento de Manoel e Rosângela.

Fotomontagem: Mara Tavares

“Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado como, por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia (…)” Manoel de Barros (In: Matéria de Poesia, 1974).

Na próxima publicação, nosso convite continua em aberto: Bora falar de arte? Lembre-se de acompanhar as redes sociais da Fundação Clóvis Salgado para se manter atualizado sobre a arte contemporânea!

Sobre as autoras:

Daniela Parampal é bacharel e licenciada em Artes Visuais, artista visual, professora e mediadora cultural na Escola de Artes Visuais do Cefart – FCS.

Mara Tavares é licenciada em Letras, mestra em Artes, professora e mediadora cultural na Escola de Artes Visuais do Cefart – FCS.