Em 2026, Hector Babenco completaria 80 anos. Nascido em Mar del Plata, na Argentina, em 1946, o cineasta chegou ao Brasil no final dos anos 1960 e aqui construiu uma das filmografias mais singulares do cinema brasileiro. Ao longo de quatro décadas, realizou filmes que atravessaram diferentes momentos do país e diferentes territórios do cinema, aproximando-se de personagens, conflitos e espaços muitas vezes marcados pela violência, pela marginalidade e pela desigualdade, mas também pelo desejo, pela memória, pela imaginação e pela possibilidade de transformação.
Reunir seus filmes em uma retrospectiva é, portanto, mais do que revisitar uma sequência de obras reconhecidas. É uma oportunidade de acompanhar a construção de um olhar. Há, na filmografia de Babenco, uma insistência em determinados lugares e personagens, mas também uma permanente disposição para deslocá-los, observá-los por diferentes ângulos e fazê-los atravessar registros diversos. Da São Paulo noturna de O Rei da Noite à violência policial de Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia; da infância abandonada de Pixote, a Lei do Mais Fraco à experiência carcerária de O Beijo da Mulher Aranha; de Brincando nos Campos do Senhor a Carandiru, seu cinema constrói uma relação particular com o Brasil, suas contradições e seus sujeitos.
Falar em autoria no cinema brasileiro pode parecer, à primeira vista, uma escolha evidente. Afinal, a ideia de um cinema autoral ocupa um lugar central na própria história da cinematografia mundial. No entanto, observar uma filmografia como a de Babenco permite compreender a autoria não apenas como uma assinatura individual, mas como uma maneira particular de olhar, escolher, enquadrar e organizar o mundo em imagens. O que se reconhece em seus filmes não é necessariamente a repetição de uma mesma forma, mas a presença de uma sensibilidade capaz de atravessar histórias muito diferentes e, ainda assim, estabelecer entre elas relações de continuidade.
Babenco trabalhou a partir de acontecimentos reais, personagens literários, experiências sociais e espaços concretos. Adaptou histórias de José Louzeiro, Manuel Puig e Alan Pauls, entre outros, e levou para o cinema personagens que já existiam fora dele. Ainda assim, essas histórias parecem encontrar em seu cinema uma forma particular de existir. Em Lúcio Flávio, a trajetória de um criminoso se transforma também em uma investigação sobre a violência institucional e sobre as relações entre crime, poder e Estado. Em Pixote, a infância abandonada torna-se o centro de uma narrativa que expõe as estruturas de violência que atravessam a vida de crianças e adolescentes. Em O Beijo da Mulher Aranha, a prisão se converte em espaço de confinamento, imaginação, desejo e encontro.
Talvez seja justamente nessa capacidade de fazer diferentes histórias encontrarem uma mesma inquietação que sua filmografia revele sua força autoral. Babenco não filmou um único Brasil. Seus filmes percorrem cidades, prisões, periferias, hospitais, florestas, fronteiras e espaços íntimos. Percorrem também diferentes momentos históricos e diferentes modos de narrar. Há o realismo áspero, o melodrama, a comédia de costumes, o cinema de gênero, a adaptação literária e a experiência autobiográfica. Essa multiplicidade não dissolve a unidade de sua obra. Ao contrário, permite perceber a autoria como uma prática de aproximação do mundo, feita de escolhas, recorrências e deslocamentos.
Sua relação com o país também não se limita à representação de uma realidade brasileira. O cinema de Babenco parece interessado naquilo que essa realidade produz nos indivíduos: medo, desejo, violência, afeto, solidão, esperança, culpa. Seus personagens frequentemente vivem em situações-limite, mas não são reduzidos a elas. Mesmo diante da brutalidade, existe uma dimensão profundamente humana em seu cinema, uma atenção aos corpos, às relações e às pequenas formas de resistência que sobrevivem dentro de estruturas maiores.
Esta retrospectiva propõe olhar novamente para essa filmografia em sua extensão. Ao reunir obras realizadas entre 1975 e 2015, além dos filmes de Bárbara Paz que se voltam diretamente para sua trajetória e sua memória, o programa permite acompanhar não apenas o cineasta reconhecido internacionalmente, mas também as transformações de um artista ao longo do tempo. O Rei da Noite, seu primeiro longa-metragem, já anunciava uma relação particular com a cidade e com personagens à margem das formas convencionais de respeitabilidade. Décadas depois, Meu Amigo Hindu retomaria questões ligadas à doença, à morte e à própria experiência de fazer cinema.
Rever Babenco hoje é, nesse sentido, reencontrar um cinema que não se encerra em seu contexto de produção. Seus filmes permanecem como registros de um país, mas também como obras capazes de produzir novas perguntas quando deslocadas para outros tempos e outras plateias. A retrospectiva parte desse encontro entre memória e presente para reafirmar o cinema como lugar de permanência das imagens, dos personagens e das histórias que um cineasta escolheu contar.
Aos 80 anos que não chegou a completar, Hector Babenco permanece, assim, menos como uma ausência do que como uma presença construída por sua obra. Uma presença que se manifesta na multiplicidade de seus filmes, na força de seus personagens e na maneira singular como transformou experiências brasileiras em matéria cinematográfica. Rever sua filmografia é também reconhecer a potência da autoria no cinema: a possibilidade de que, através de diferentes histórias, diferentes tempos e diferentes mundos, um olhar continue a nos alcançar.