FORUMDOC.BH.2020 | Narrativas históricas e antropológicas em cena

19/11 - 28/11

www.forumdoc.org.br

O contexto de isolamento social inaugurou um novo formato de partilha e experiência coletiva. Sensível às limitações físicas, a edição deste ano do Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte (forumdoc.bh) será realizada integramente de modo virtual.  A quase totalidade dos filmes que compõem a programação permanecerá online e disponível durante todo o período do festival com acesso amplo e gratuito, no site oficial www.forumdoc.org.br. Entre os dias 19 e 28 de novembro, o público é convidado a acessar espaços virtuais para conhecer, assistir e debater produções que abordam perspectivas autorais e culturais diversas. Na edição deste ano, serão exibidos 71 filmes, distribuídos em três mostras centrais, sendo uma delas dedicada à temática do território e da luta pela terra, intitulada: “Esta terra é a nossa terra”. “Se o momento nos faz deixar, ainda que momentaneamente, a experiência irreproduzível da sala de cinema, a ampliação da difusão da programação pela(s) nuvem(ns) nos leva a transfluências insuspeitas, a novos encontros, espaços, pessoas e lugares, onde esperamos, uma comunidade ainda que breve, mediada pelos filmes e pensamentos que estes mobilizam, possa se formar e, de novo e de novo, existir”, explica a equipe de coordenação do forumdoc.bh.2020.

 

Abertura

A intensa programação de filmes, discussões e masterclass será aberta no dia 19 de novembro com transmissão do evento de abertura pelo canal do forumdoc.bh no YouTube (@forumdoc), a partir das 19h30. Participam do debate Paloma Rocha e Luís Abramo, diretora e diretor do filme Tentehar – Arquitetura do Sensível (DF/RJ, 2020). A mediação fica por conta de Daniel Ribeiro e Júnia Torres, integrantes da equipe de programação. Tentehar e o curta O que há em ti, de Carlos Adriano (SP, 2020), que compõem a sessão de abertura do festival, poderão ser vistos online entre os dias 19 de novembro, às 12h, e 22 de novembro, às 23h59. Os títulos da abertura do forumdoc.bh.2020 dialogam com a atual cena política brasileira e reforçam o compromisso do festival em ser um espaço de reflexão e exibição de trabalhos resultantes do universo de produção e resistência do filme documentário e etnográfico.

 

 

Mostra Temática “Esta terra é a nossa terra”

A Mostra Temática “Esta terra é a nossa terra” conta com 23 filmes históricos estrangeiros e brasileiros organizados em 10 sessões. A curadoria assinada por Carla Italiano, Ewerton Belico e Milene Migliano evidencia produções cujas narrativas se valem da relação entre realizadoras e realizadores e movimentos sociais dedicados às lutas fundiárias, urbanas e rurais. A maioria das produções convidadas testemunha atos, processos históricos de movimentos ou lutas, e registram conflitos em curso. Segundo a curadoria, “há diversas modalidades de luta popular em cena: desde a resistência camponesa e estudantil à construção do Aeroporto de Narita, em Sanrizuka, no Japão, até a luta quilombola urbana nos dias de hoje, nos Luízes, em Belo Horizonte; da organização de moradores na crise dos aluguéis na Londres dos anos 1960 às iniciativas de autoconstrução, mutirões e organização popular de bairros nas periferias brasileiras, dentre várias outras”.

A Mostra Temática é a única no festival a exibir filmes internacionais. Entre os longas estrangeiros, estão trabalhos históricos de cineastas notórios como Shinsuke Ogawa (Japão), que assina o longa Narita: the Peasants of the Second Fortress (1971, 143’); Alanis Obomsawin (Canadá), diretora de Kanehsatake – 270 years of resistance (1993, 119′); Anand Patwardhan (Índia), autor de A Narmada Diary (1995, 57′); Omar Amiralay (Síria), diretor de Everyday life in a Syrian Village (1974, 82′) e Kamal Aljafari (Palestina), responsável por The Roof (2006, 63′).

Das 15 produções brasileiras convidadas estão trabalhos realizados junto a movimentos sociais, que marcaram a cinematografia nacional. Fim de Semana (SP, 1976, 31′), de Renato Tapajós, e Mulheres no front (PE/RJ/RS, 1996, 36′), de Eduardo Coutinho são dois dos títulos da grade Lutar, morar, construir, que reúne médias-metragens sobre organizações comunitárias a forjar e dar a conhecer laços de morada, no cenário brasileiro. Destaque também para A classe roceira (PR, 1985, 29′), de Berenice Mendes, que testemunha os primórdios do MST num acampamento rural paranaense em prol da reforma agrária e o lançamento do longa indígena maxakali Nũhũ yãgmũ yõg hãm: Essa terra é nossa! (MG, 2020, 70’), de autoria dos cineastas Isael Maxakali e Sueli Maxakali em conjunto aos pesquisadores e realizadores Carolina Canguçu e Roberto Romero. Os trabalhos estão na grade Cantar o solo, que traz um recorte da terra e o seu potencial de vida.

 

 

Mostra Contemporânea Brasileira

A Mostra Contemporânea Brasileira, dedicada a filmes selecionados entre centenas de inscritos, mapeando o documentário recente, exibe 36 títulos nacionais produzidos em 2019 e 2020, oriundos de 13 estados brasileiros e do Distrito Federal, incluindo coproduções nacionais e uma internacional, feita em parceria entre Pernambuco e Colômbia. O número expressivo de inscritos, de acordo com os curadores André Novais de Oliveira, Daniel Ribeiro, Júnia Torres e Luisa Lanna, é resultado da política de incentivo ao audiovisual implementada em gestões anteriores à do atual Governo Federal.

A difícil tarefa de seleção, segundo os curadores, considerou o espaço de programação face aos critérios curatoriais que privilegiaram produções que enfrentariam dificuldades de circulação impostas a certas tendências audiovisuais. “No conjunto apresentado, estão autores de grande força poética, lírica, subjetiva, capazes de invenção e coragem na linguagem, constituindo um cinema que amplia a relação entre os supostos procedimentos documentais e não-documentais, entre a vida e o sonho”, definem. Entre os filmes inscritos e os selecionados, a curadoria comemora a ampliação dos protagonismos de autoria dos cinemas negros, periféricos e indígenas, que vem abalando as estruturas do documentário que se faz hoje no Brasil.

Produções do Pará e do Mato Grosso estão entre os destaques de documentários de autoria indígena. Serão exibidos os curtas Xandoca (MT, 13’), de Takumã Kuikuro, e Topawa (PA, 7’), de Kamikia Kisedje e Simone Giovine, além do longa Ingrõny, Pisada Forte (PA, 75’), do Coletivo Beture de Cineastas Mebengokre. Na seleção entre as produções mineiras, estão os trabalhos Morde & Assopra (10’), de Stanley Albano; Mineiros (23’), de Amanda Dias; e Entre Nós Talvez Estejam Multidões (95’), de Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito, este último uma coprodução mineira com Pernambuco.

Em exibição na Mostra Contemporânea Brasileira também estão filmes premiados como A Morte Branca do Feiticeiro Negro (SC, 10’), de Rodrigo Ribeiro; O Índio Cor de Rosa Contra a Fera Invisível: A Peleja de Noel Nutels (RJ, 71’), de Tiago Carvalho; Pajeú (CE, 74’), de Pedro Diogenes; e Cadê Edson? (DF, 74’), de Dácia Ibiapina. Entre as estreias, estão os trabalhos de Yaõkwa – Imagem e Memória (PE/MT, 21’), de Vincent Carelli e Rita Carelli; Belos Carnavais (SP, 16’), de Thiago B. Mendonça; Entre Nós e o Mundo (SP, 17’), de Fabio Rodrigo; Território Suape (PE, 70’), de Cecilia da Fonte, Laércio Portela e Marcelo Pedroso.

A mostra também traz longas que se destacam-se no campo documental e estético em 2020, a exemplo de Cavalo (AL, 85’), de Rafhael Barbosa e Werner Salles, e Entre Nós, Um Segredo (RJ, SP, 78’), de Beatriz Seigner, Toumani Kouyaté. O filme Aleluia, O Canto Infinito do Tincoã (BA, 67’), de Tenille Bezerra, apresenta uma bela homenagem ao cantor e compositor Mateus Aleluia.

Nesta edição, o forumdoc.bh contará com duas comissões de júri que elegerão, dentre as obras selecionadas para a Mostra Contemporânea Brasileira, destaques entre os filmes curtas e longas, a partir dos olhares de pesquisadores de cinema e realizadores/as oriundos/as de diversos lugares. Compõe a Comissão de longas-metragens: Henrique Borela Aguiar, realizador audiovisual e um dos criadores do Fronteira – Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental; Kênia Freitas, professora, crítica e curadora de cinema, com pesquisa sobre Afrofuturismo e o Cinema Negro, doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ; e Naara Fontinele, pesquisadora, professora, educadora e curadora de cinema, doutora em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3.

A comissão que conferirá destaque aos curtas-metragens é formada por Alberto Alvares, profícuo realizador Guarani que vem tendo  seus trabalhos reconhecidos e premiados em festivais de cinema no Brasil e em outros países; Juliano Gomes, crítico e professor, editor da Revista Cinética, onde escreve desde 2010; e Maya Da Rin, diretora cujo trabalho mais recente A Febre (2019) vem se destacando em alguns dos mais reconhecidos festivais de cinema do mundo.

 

Sessões especiais

A grade das Sessões Especiais, por sua vez, é composta por 10 filmes destacados pelo festival, trazendo realizadores, linguagens e temáticas com as quais o forumdoc.bh.2020 estabelece relações especiais há vários anos, como o protagonismo e as questões indígenas ou filmes de caráter etnográfico e político marcado. Entre as produções selecionadas para essa grade, estão os filmes #eagoraoque (2020, 70’), de Jean-Claude Bernardet e Rubens Rewald; A Flecha e a Farda (2020, 85’), de Miguel Antunes Ramos; e Favela é Moda (2019, 75’), de Emílio Domingos.

 

Debates, seminário e masterclass

Além das mostras de filmes, a programação do festival conta com um fórum de debates. Sete Encontros com realizadoras e realizadores da Mostra Contemporânea Brasileira vão projetar discussões sistematizadas em torno dos filmes organizados em diferentes temáticas: cinema-território; retratos indígenas: memória e imagens de si; pelo Atlântico Negro; sobre poemas e invenções formais; demarcar telas; cosmologias, religião e o corpo em performance; e cinema: corpo-político-periférico.

Já o Seminário “Esta terra é a nossa terra”, organizado em quatro mesas de debate entre 23 e 26 de novembro, com inscrições prévias, propõe atualizar as discussões a respeito das diversas lutas pela terra – pelo direito ancestral à terra, ao corpo enquanto primeira terra que habitamos e sobre a impossibilidade de justiça social sem que todos tenham um chão, e teto, para viver. A partir das discussões suscitadas pelos filmes da mostra homônima, 13 lideranças atuantes e inspiradoras foram convidadas para compartilhar suas motivações e trajetórias no Seminário do forumdoc.bh.2020. Em pauta está, especialmente, a situação de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, camponeses, migrantes, trabalhadoras e trabalhadores pobres das metrópoles brasileiras.

Também integra a programação do festival a Masterclass O filme ensaio e as margens entre as imagens, com a realizadora Joana Pimenta (Portugal). O encontro está agendado para o dia 28 de novembro, às 16h, para os inscritos previamente. Nas produções As Figuras Gravadas… e Um Campo de Aviação, Joana Pimenta trabalha o filme-ensaio como uma forma possível de etnografia sensorial. Segundo a realizadora, esse tipo de produção “ocupa-se temporariamente de diferentes geografias e territórios, que são posteriormente reconstruídos a partir da memória dos espaços reais”.

A programação do forumdoc.bh.2020 permanece inteiramente disponível, online e gratuita, ao longo dos dias de festival, no período de 19 e 28 de novembro. Dos 71 filmes em exibição, apenas cinco têm data de exibição definida: as duas produções da sessão de abertura e três filmes da Mostra Contemporânea Brasileira.

Patrocínios: O forumdoc.bh.2020 é realizado pelo coletivo Filmes de Quintal e, nesta edição, co-realizado pela Fundação Clóvis Salgado. Conta com o patrocínio da Codemge/Estado de Minas Gerais, do Instituto UNI-BH e do BDMG Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, e do Itaú, pela Lei Federal de Incentivo à Cultura.

 

forumdoc.bh

O forumdoc.bh, festival de cinema que mais edições realizou historicamente no estado de Minas Geras, foi criado em 1997 com o objetivo de compartilhar filmes aos quais não tínhamos acesso em salas de cinema convencionais. Buscava-se também promover reflexão e formação crítica de público, fomentar a pesquisa e a qualificação da produção audiovisual. Em edições anuais e ininterruptas, o festival consolidou-se como um fórum de antropologia e cinema. Realiza retrospectivas autorais e resultantes de curadorias que se articulam em torno de conceitos, movimentos ou temáticas específicas, além de apresentar um panorama das produções documentais recentes em mostras competitivas nacionais e internacionais. Críticos, pensadores e realizadores do Brasil e de outros países são presenças no fórum de debates, um dos principais diferenciais do festival.

Informações

Local

www.forumdoc.org.br