Retratistas do Morro On-line

01/09

Gerência de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado

 

A exposição Retratistas do Morro, que ocupa a CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais  desde o início deste ano, está aberta à visitação agora em formato digital. A mostra, que possui curadoria do artista visual, pesquisador e empreendedor cultural Guilherme Cunha, reúne imagens pertencentes à história recente da fotografia brasileira produzidas pelos fotógrafos João Mendes e Afonso Pimenta, que trabalham, desde a década de 1970, registrando o cotidiano dos moradores da Comunidade do Aglomerado da Serra, segunda maior favela do país, localizada em Belo Horizonte. Este evento possui correalização da Appa – Arte e Cultura.

A visitação presencial de Retratistas do Morro foi interrompida em março deste ano devido às medidas de prevenção ao coronavírus. Assumindo nova proposta, a mostra tem as fotografias apresentadas digitalmente, em uma galeria virtual que esta disponível para acesso gratuito. A mostra também conta com produções audiovisuais, que compreendem vídeos pela exposição, entrevistas com os fotógrafos João Mendes e Afonso Pimenta, e conversa com o curador Guilherme Cunha. A adaptação da exposição para o formato on-line é mais uma ação da Fundação Clóvis Salgado que integra o projeto Palácio em Sua Companhia e visa fomentar a inclusão digital e o acesso do público às programações artísticas da instituição mesmo durante o período de distanciamento social.

 

Novas formas de apreender a arte – Para o curador Guilherme Cunha, a retomada da exposição em formato digital é uma forma de adicionar diferentes formas de sentido às obras, tornando-as até mesmo mais acessíveis ao público que não podia comparecer presencialmente à galeria. “Tornar Retratistas do Morro uma mostra on-line é proporcionar uma perpetuação das imagens em um suporte distinto, traduzindo-o e adicionando diferentes camadas de interpretações nas imagens”, explica o curador.

“O cuidado e a delicadeza que conferimos às imagens também foi aplicado ao ambiente digital, e os visitantes da mostra poderão experimentá-la de forma diferente, mas não menos interativa e afetiva. A fruição das fotografias que ocupam o espaço da galeria passa a assumir uma perspectiva de materialidade diferente: a virtual, que possibilita a visitação de diversas pessoas de forma simultânea, mesmo que elas estejam em localidades distintas”, reflete Cunha.

 

A exposição – Segundo Guilherme Cunha, que realiza pesquisas em torno da história da fotografia e restauração de imagens, as fotos de João e Afonso nos revelam outras versões da história das metrópoles e das populações de favela no Brasil, contadas a partir das experiências e visões de mundo de seus próprios moradores. “João e Afonso possuem uma trajetória artística que ultrapassa a noção do documental, e passa a ser biográfica. Ambos representam suas trajetórias de vida, lutas e conquistas, entrelaçadas ao cotidiano de moradores do Aglomerado da Serra, que são seus pares, já que também eles moram no local”, conta o curador.

Em meio a gestos fotográficos que não implicam uma abordagem profissional, os fotógrafos captam diferentes realidades familiares e seus movimentos cotidianos: casamentos, nascimentos, batizados, jogos de futebol, velórios, formaturas e bailes. Segundo Cunha, “João e Afonso construíram uma iconografia inédita, das poucas ainda preservadas, em que é possível acessar por meio da imagem mudanças nos cenários social, político, econômico e cultural, ocorridas nas favelas do Brasil ao longo dos últimos quase 50 anos”.

 

Ritos de passagem – A expografia de Retratistas do Morro explora o espaço da CâmeraSete de modo a imergir o visitante naquele universo – no tour em forma de vídeo, o visitante poderá acompanhar essa trajetória. “O primeiro andar do espaço é dedicado aos retratos 3×4 feitos por João no período entre 1975 a 1979, com uma câmera Yashica Mat, e a coleção de fotografias de becas ou formaturas, em que as crianças da Comunidade da Serra, estudantes da rede pública de ensino, foram fotografadas celebrando o percurso de diferentes períodos escolares”, explica Cunha.

Já as imagens de Afonso Pimenta, que foram apresentadas em grandes formatos, representam um baile de soul music. “O percurso de Afonso como fotógrafo profissional começou a se consolidar nos registros dos bailes de soul da Comunidade da Serra. Ao longo da década de 80, ele acompanhou os movimentos culturais que traziam a afirmação e força da identidade cultural negra em BH”, explica Cunha.

 

Direito igual de existir – A convivência e pesquisa que deu origem ao projeto Retratistas do Morro é realizada desde 2010, com levantamento dos fotógrafos tradicionais, mapeamento e estudo de seus acervos, restauração, digitalização e preservação do material fotográfico. O projeto recebeu o prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade em outubro de 2017, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), pelo reconhecimento da importância simbólica do trabalho para o patrimônio cultural brasileiro. O projeto também foi selecionado para o programa Rumos Itaú Cutural 2017-18; pelo Espaço Cultural Marcantônio Vilaça (2018); e publicado como editorial e capa da revista ZUM do Instituto Moreira Sales (2018).

A comunidade do Aglomerado da Serra se divide em oito vilas e abriga mais de 70 mil pessoas, resultado da expansão populacional e territorial de vilas menores que foram surgindo na encosta da Serra do Curral a partir de 1914. “Afonso e João encontraram espaço para registrar memórias daquela população diante da desigualdade, afirmando a potência de uma memória afetiva e a imagem como um local também de escuta”, ressalta Cunha. “Retratistas do Morro apresenta uma realidade em que todos temos o direito igual de existir e manifestar nossas subjetividades”.

 

Guilherme Cunha – É artista visual, pesquisador e empreendedor cultural formado em artes plásticas ela Escola Guignard (UEMG) e Pittsate University (KS/EUA). Suas produções e pesquisas transitam por diferentes meios, atuando na interseção entre as artes visuais com outras formas de conhecimento. Foi artista residente do Atelier #3 na Casa Tomada (SP/2010), do JA.CA (BH/ 2014) e do RedBull Station SP/2014); Foi contemplado no programa de exposições do Espaço Cultural Marcantônio Vilaça em 2015, no XIII Prêmio FUNARTE Marc Ferrez de Fotografia e foi co-idealizador do projeto que recebeu o XIV Prêmio FUNARTE Marc Ferrez de Fotografia. É co-idealizador e codiretor do FIF BH – Festival Internacional de Fotografia de Belo Horizonte (2013/2015/2017) (fif.art.br).

 

Afonso Pimenta (1954 -) – Nascido em Suaçuí, interior de São Paulo. A fotografia chegou a sua vida por necessidade. Como assistente do fotógrafo João Mendes, enquanto lavava as imagens já reveladas, ia aprendendo seu futuro ofício. Fotografou os concursos de dublagem, os salões, os dançarinos, grupos de amigos, e viveu muito perto os bastidores do movimento “Black” e dos bailes de soul que surgiam na periferia. Começou então a trabalhar, como ele mesmo define, “no corpo a corpo” – indo ao encontro das pessoas e caminhando pelo morro. Há quase 40 anos registra o cotidiano dos moradores e os eventos sociais que ali acontecem.

 

João Mendes (1951 -) – Nascido em Iapú, munícipio de Inhapim, comarca de Caratinga Minas Gerais, João Mendes trabalhou no interior com os pais desde os 8 anos de idade. Depois de passar por vários empregos e vender picolés de porta em porta, aos 15 anos, João inicia sua trajetória na fotografia. Ainda nessa época, foi contratado pelo delegado de polícia da cidade para ser o fotógrafo oficial da perícia. Em 1973 João Mendes se estabelece como um dos primeiros fotógrafos profissionais no bairro Serra, em Belo Horizonte, onde vem trabalhando há 45 anos. Desde então, sua loja, Foto Mendes, fica localiza no mesmo local, e até hoje é uma referência.

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